web metrics


Que Lúcifer me perdoe mas desta vez defendo a Turma do Cordeiro e nem é assado

23/02/2011 - 5:17 pm  -  33 comentários


Quem me acompanha sabe que não nutro grandes amores por religião. Considero religião organizada um dos grandes males da Humanidade e fico muito feliz do Brasil conseguir bagunçar tudo e gerar o fenômeno da religião desorganizada, onde com nosso sincretinismo temos católicos devotos dando dinheiro pra empregada comprar oferenda pra Iemanjá, judeus comemorando Natal e batistas se fingindo de mortos pra não ter que explicar pela milésima vez que protestante não é o mesmo que pentecostal.

No final raras exceções ninguém se mata e vai todo mundo vivendo, mas de vez em quando surge alguma grande barbaridade. Algumas são inócuas, como o deputado evangélico que gastou tempo e dinheiro públicos com um Projeto de Lei anti-heterofobia. Outras vezes é algo que fere tanto, mas tanto a liberdade individual, que sou obrigado a me meter.

appatinho

Da mesma forma que não quero bíblias em escolas públicas, muito menos bíblias OBRIGATORIAMENTE em todas as escolas, acho que se uma escola é associada a uma denominação religiosa, nada mais justo que ela inclua no currículo a literatura que quiser, seja a bíblia, o alcorão ou o Necronomicon. Mais importante do que a presença ou não da bíblia na escola, é a questão da obrigatoriedade. Forçar alguém a fazer algo, quando é uma escolha pessoal é errado, profundamente errado.

Por isso é com pesar que me coloco ao lado dos livreiros evangélicos e denuncio o projeto do Deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG). A proposta, travestida da mais clara e tradicional democratite:

obriga livrarias e pontos de venda de livros a comercializar todas as obras enviadas a eles. Caso o comerciante se oponha a vender, deverá comunicar os motivos por escrito ao autor ou editor, que poderá apresentar recurso à Câmara Brasileira do Livro ou às câmaras estaduais.

Isso mesmo. Você, dono de livraria, com um espaço finito de estante, com estoque apertado terá que aceitar toda e qualquer porcaria que aparecer, sob pena de ser denunciado e ter que se defender. Qualquer um chegará em seu balcão e fará uma proposta que você não poderá recusar. Não importa que você seja uma empresa privada, de capital próprio. Na verdade, segundo o Deputado, não é. Diz ele que livrarias:

“não são meras casas comerciais, mas locais de transmissão e circulação de ideias e produtos intelectuais de interesse da cultura nacional”.

Aham. Por isso nem pagam aluguel ou impostos, acertei?

Imagine as Edições Paulinas, excelente livraria/Editora católica, tendo que se justificar por não querer vender os livros de Richard Dawkins. Ou as livrarias menores, especializadas em livros de arte tendo que se explicar cada vez que algum mané que imprimiu dez cópias de seus Contos Escolhidos numa vanity press da vida não conseguir local de honra na estante.

Ou então as livrarias evangélicas. Será que elas realmente precisam exibir literatura erótica, científica ou espírita? Como o Deputado pretende suprir a renda das vendas perdidas, quando os clientes passearem e só acharem livros que não querem?

Imagine se a moda pega. Lojas de CD terão que vender todos os CDs enviados para elas. Cinemas terão que exibir todos os filmes enviados pelas distribuidoras. Canais de assinatura passarão todos os programas encaminhados e a loja do Android disponibilizará qualquer porcaria programada pra ele. OK, esse último já acontece.

Já tivemos uma época onde foi moda impor credo a terceiros…

 

A melhor forma de acabar com religião é através do conhecimento, mas isso não se consegue estuprando o sujeito com conhecimento. É algo forçado, barulhento e tende a estragar o livro. Ou o iPad. Acima de tudo tem que ficar claro que o que NÃO está em discussão é o direito do sujeito ter uma religião, e esse direito é desrespeitado no momento em que uma livraria religiosa é obrigada a vender livros que contrariem tudo que seus donos acreditam.

O Deputado se vende como progressista, mas a postura final é tão radical quanto os cristãos que não querem uma mesquita perto do ponto-zero em Nova York ou dos países islâmicos que criminalizam evangelização de outras religiões ou punem ateísmo com pena de morte.

Ateus defendem a tese de que moralidade independe de religião. Pelo menos amoralidade fica claro que não depende. Isso é muito triste e muito errado, e se Deus existisse tenho certeza que concordaria comigo.

Fonte: Gospel+


Robocop, merchã e outras coisas que não funcionam no Brasil

23/02/2011 - 3:03 pm  -  34 comentários


Detroit é um buraco. Para dar uma idéia do fracasso que a cidade é, a prefeitura tem programas onde PAGA parar você ir morar lá, casa incluía. Mesmo assim ninguém quer. Quem viu Robocop e achou aquela Detroit fictícia puro exagero hoje percebe que foram educados e conservadores ao imaginar quanto a cidade iria para as cucuias em alguns anos.

Mesmo assim, sem ter nenhum mérito real, no mundo fictício e virtual a cidade ainda tem seus fãs, e o prefeito, Dave Bing (provavelmente patrocinado pela Microsoft) é ativo participante do Twitter, embora seus parcos 4293 seguidores demonstrem a popularidade da administração.

Um belo dia um cidadão enviou uma mensagem para o prefeito, uma mensagem que mudou o mundo <==alerta: hipérbole

robocop1

É verdade. Robocop é O embaixador de Detroit. Representa Justiça, Lealdade, Amizade, Honestidade, tudo que a cidade precisa. Uma estátua seria excelente. Só que o prefeito Bing preferiu não arriscar, e deu uma resposta-padrão:

robocop2

Felizmente outras pessoas compraram a idéia e iniciaram um site – www.detroitneedsrobocop.com – arrecadando fundos para a estátua. A meta era US$50 mil. Quando chegaram na metade um doador misterioso cobriu de uma paulada só os US$25 mil, viabilizando o projeto. DETROIT VAI GANHAR SUA ESTÁTUA, EIS ELA AQUI:

Robocop-Statue

Só isso seria um final feliz, mas você não me lê atrás de historinhas simples com finais felizes. O caso é mais complexo e mais legal ainda.

A empresa que doou os US$25 mil atende no Twitter por OmniCorp, seu nome completo é Omni Consumer Products. A empresa vilã dos filmes do Robocop, e que existe mesmo.

A doação, que fica parecendo masoquismo na verdade é marketing, onde todo mundo ganha. A Omni é uma firma pequena especializada em algo arrisco dizer inédito no Brasil: Desficcionalização.

O quê é isso? Isto:

trublood

Eles se especializam em produzir versões reais de produtos fictícios. Não é merchandising, é o produto mesmo, dentro do razoável. Se você for um vampiro de verdade não há garantia de que o Tru:Blood deles irá saciar sua sede. Também não há garantias que os marshmallows Stay Puft incorporem a essência de Gozer, o Destruidor. Talvez seja melhor assim.

A estratégia de financiar a estátua é, obviamente uma forma de cavar divulgação, mas não importa. É uma troca justa. Nenhuma empresa no mundo teria mais direito de associar seu nome ao Robocop. Do ponto de vista nerd é algo Full of Win. O retorno que estão tendo demonstra que as Interwebs aprovaram. Centenas de blogs e portais já comentaram o caso, citando nominalmente (há como não fazer?) a empresa e direcionando visitas para seus links. O feedback negativo tem sido zero.

Bem diferente do que aconteceu quando o Peixe Urbano resolveu usar seu banco de usuários para angariar doações para as vítimas das chuvas na região serrana do Rio, aquelas que ninguém mais fala pois já vem chegando o Carnaval.

A iniciativa foi louvável e a idéia de usar toda a estrutura de billing já existente faz todo o sentido do mundo, mas no momento em que o Luciano Huck, odiado por trabalhar na Globo e comer a Angélica (eu questiono a ordem, mas tudo bem) divulgou o link pedindo doações, o mundo desabou. (too soon?)

Seus 5% de participação na empresa foram exagerados para “dono do Peixe Urbano” e “aproveitador da tragédia”. Não importa que o site tivesse 5 milhões de usuários cadastrados capacitados a doar com um clique, na mente medíocre era só uma forma de angariar novos usuários.

Não adianta discutir com idiotas, também não dá para se precaver 100% contra eles, mas é preciso não ser ingênuo. O Peixe Urbano deveria ter colocado um texto com as contas oficiais de doações, caso as pessoas não quisessem se cadastrar para doar. Seria irrelevante mas daria menos um motivo aos haters.

Haters que se a Omni viesse para o Brasil ironicamente surgiriam da mídia.

Somos historicamente avessos a merchandising. Nossa TV infantiliza o product placement a ponto do incômodo. Há um medo enorme de que o espectador não perceba o produto, por isso ele é gritado balançado e apontado. Uma ida ao caixa eletrônico se torna um evento, com close na marca e no cartão.

Mais ainda: Nossas novelas vivem em um mundo sem propaganda, sem marcas. Elas só aparecem na hora do merchã. É pecado mortal mostrar um produto que não esteja patrocinando. A Globo acabou virando refém das próprias regras draconianas, os grandes anunciantes exigem contrapartidada, e quem tá pagando, tá mandando.

Onde entra a Omni? Ela não teria função. Não há sequer uma cultura de merchandising na nossa TV.

NOTA: A Globo usa Merchandising como termo em português para Product Placement. Internacionalmente Merchandising seria a veiculação de marcas em produtos agregados, como cadernos do Homem-Aranha, etc. É um uso errado? É, mas eu não vou brigar com a Globo, e se ela espirrar, saúde.

A Globomarcas, lojinha que cuida da venda de produtos associados aos programas da emissora é uma vergonha, comparado com o que temos lá fora nas Internetes. Uma busca simples: Globo Esporte. Mercado amplo, gastador. Sabem quantos produtos relacionados há? CINCO MIL (mentira, só cinco. 5, não cinco mil. 5)

Compare com a diversidade de produtos só neste site, que vende… camisas do Sheldon Cooper.

À ausência da cultura de merchandising some uma antipatia dos autores para o capitalismo (é, o bom e velho ranço de esquerda de todo intelectual brasileiro) e 99% dos empresários com empreendimento maior que uma banca de acarajé são vilões. Quem andaria com a marca de vilões estampada na camisa? (ok, eu, mas não conto)

Há uma falta de cuidado total na programação visual das empresas fictícias das novelas e séries brasileiras. Percebo que é uma espécie de “controle de dano”, pra quando copiarem não ser perdido grande coisa. Só que isso enfraquece o produto.

Sim, queridos autores, sua novela, sua série é um produto. A empresa que você cita na série, é um produto.

Eu adoraria ter comprado camisetas da Armação Ilimitada, cadernos com capas do Diário do Crepúsculo. Na época do Bem Amado alguém perdeu milhões ao não vender o Legítimo Licor de Jenipapo Made In Sucupira, e como assim ninguém vendeu medalhas do Zé das Medalhas?

Não é porque a Globo não repete “abaixo a Rede Globo” que ela é boba. Essa cultura de não pensar merchandising, de não pensar desficcionalização vai muito além do Jardim Botânico. Ninguém envolvido com produção cultural no Brasil parece pensar diferente, independente de emissora ou produtora.

Repetem a velha ladainha de que é feio ganhar dinheiro e que isso nunca deve ser o objetivo, e sim a consequência. Não percebem que da forma com que colocam, o termo mais adequado é “coincidência”.  TODAS as grandes obras de arte individuais da História foram feitas por dinheiro. Da Mona Lisa ao Requiem de Mozart. Ganhar dinheiro com o próprio talento NÃO é demérito. Demérito é se orgulhar de não ter feito uma maldita camiseta “Demóstenes Maçaranduba – eu voto” com a cara-de-pau excelente de sempre do Zé Wilker.


Ainda continhos: Minha primeira incursão no mundo de Star Trek

19/02/2011 - 11:01 pm  -  27 comentários


Era um trabalho de redação publicitária, 1992. Tema: Atualizar uma velha lenda. Resolvi criar uma história ambientada no universo de Jornada nas Estrelas. acabei me saindo com um conto bem legal, que lembra bastante o magnífico episódio de Star Trek: Voyager Blink of on Eye. Em minha defesa meu texto é de 1992 e o episódio é de 2000, então não houve kibada, sequer não-intencional. Claro, nada descarta uma anomalia espaço-temporal violando as regras de causalidade e transferindo a informação para meu cérebro, mas aí seria já outro conto.

ksm

O continho abaixo é um presente para os trekkers, espero não ter assassinado demais os personagens. Está sem título pois só agora me toquei que funciona bem melhor assim.

Clique para ler o resto do artigo »


Batman in Rio

19/02/2011 - 7:09 pm  -  12 comentários


Dando prosseguimento ao meu processo arqueológico de desenterrar textos antigos, outro de 1993, uma besteirinha sobre como seria Batman no Brasil. Não sei se foi escrito depois de um número do gibi onde a referência de Rio de Janeiro para o roteirista era uma daquelas favelas mexicanas com todo mundo falando espanhol ou se foi apenas fruto da minha falta de tempo. Está divertidinho mas o texto é datado, ninguém vai lembrar da piada do Lazaroni e terão que ir na Wikipédia atrás do Selo-Pedágio.

batnao

Eu ia usar o Batman do Adam West mas esse é bem mais ridículo

Batman in Rio

Sabem quem pendurou as chuteiras e está no analista? O Batman.

Exato. O morcegão está emocionalmente perturbado e desfruta de longas férias, sem data para voltar ao trabalho. Tudo começou quando o justiceiro de Gotham City seguiu um grande mafioso até o Brasil…

_Isso é meu bat-computador portátil, seu guarda.

_Sei -disse o guarda da alfândega- todo mundo dá uma desculpa. Muamba é muamba. Cadê a nota fiscal? E o senhor vai pagar multa. Esse troço deve custar bem mais de trezentos dólares.

_Eu quero falar com uma autoridade policial. Eu sou um agente da lei e exijo uma autoridade. Onde está o chefe daqui?

_Olha, o doutor Mendonça saiu pra almoçar e não tem hora pra voltar. Ele tinha que levar o carro na oficina, eu acho.

Incrédulo, o homem-morcego consultou o relógio e disse:

_Como saiu pra almoçar? São 10h30min da manhã!

_Eu sei, mas hoje ele trabalhou até tarde. Saiu ainda agorinha.

Como Bruce Wayne é podre de rico, Batman pagou as multas e foi retirar o batmóvel no terminal de carga do Galeão. A pintura estava arranhada.

Usando o sistema de navegação por satélite do batmóvel, ele conseguiu achar a Dutra, mas foi logo parado no primeiro posto da Polícia Rodoviária:

_Documentos, chefia.

_Eu estou com pressa, policial. Eu sou o Batman e…

_Tá bom, eu sou o Lazaronni. Agora cadê o selo-pedágio?

_Selo-o-quê?

O guarda virou para seu companheiro e falou:

_Mais um paulista. Esse pessoal adora se fingir de desentendido.

O confuso vigilante viu que seria detido pela polícia brasileira, e para não criar um incidente internacional, falou:

_Seu guarda, não podemos dar um jeitinho? Quem sabe a gente conversando…

_Mas claro -disse o guarda abrindo um sorriso- conversando a gente resolve tudo, doutor.

Alguns minutos atrasado e alguns dólares mais leve o vigilante prosseguiu seu martírio por terras brasileiras.

_Com licença, moço. Quer que eu tome conta?

Em pleno centro de São Paulo, o escurinho com uma flanela na mão esperava a resposta do morcego.

_Não é preciso, meu jovem. O bat-alarme pode evitar qualquer tentativa de roubo do batmóvel.

_Ih, doutor. Isso não tá com nada. É só achar o fio, cortar e fazer a ligação direta.

_O senhor não quer comprar uma tranca?

Outro menor se aproximava, com um sortimento completo de trancas, segredos, alarmes e break-lights.

_Tem luz de freio também, doutor. Não vai levar?

Antes de ir embora o morcego não resistiu e levou um break-light com o símbolo do Batman, que tinha encalhado da época do filme.

Naquela altura, ele já estava ficando curioso. Ninguém havia reparado em seu uniforme. Mesmo em Gotham City as pessoas ainda se assustavam com o disfarce do morcego. Ele não resistiu e perguntou a um transeunte que passava (aliás, os transeuntes não fazem nada além de passar):

_Desculpe, cidadão, mas vocês não se assustam comigo ? Você não vê nada de errado com a minha roupa?

O homem coçou a cabeça, olhou o homem-morcego de alto a baixo e deu o veredicto:

_Olha, meu, é o seguinte: Estranho eu não vejo. Mas cê podia botar mais cor, umas lantejoulas, sei lá. E a capa, não tá muito legal. Você é de Pelotas? E mais uma coisa: Cê tem outro convite pro Ilha Porchat pra me arrumar? O baile é semana que vem e os convites acabaram.

Sem entender direito, Batman anotou a referência à Pelotas para futura pesquisa e prosseguiu sua missão. Agora ele precisava achar a delegacia do Bixiga. “Vai ser fácil” pensou o morcego, enquanto encostava o carro para perguntar a um cidadão.

_É fácil, meu! Segue em frente, aí cê dobra no farol. Então vira pra esquerda no Tietê e vai em frente toda vida, quando cê vê um bondinho entre dois morros, faz o retorno e se informa!

O batmóvel seguiu direto pela Dutra, e só na metade do caminho Batman percebeu o adesivo “Amo São Paulo Voto Maluf” que haviam colado no vidro do carro.

Quando estava pensando em voltar para tomar satisfações, o bat-fone tocou. Era o contato brasileiro de Batman na polícia federal, avisando que Don Raviolli, o mafioso, havia fugido para o Rio de Janeiro.

_Já que estamos por aqui… -pensou o morcego-

No centro do Rio, ele teve que deixar uma grana na mão de um guarda para conseguir uma vaga. Do Castelo ele andou até a Praça Mauá, na sede da polícia federal. No meio do caminho não resistiu e levou um chaveiro do Batman que um garoto vendia por apenas cinco dólares, porque ele conseguiu um desconto de 50%.

_Como assim um parceiro, delegado?

_É fácil -respondeu Tuma- você vai precisar de alguém que conheça o Brasil.

_Certo, mas e meu disfarce?

_Não precisa -disse Tuma- estamos no carnaval. Você ainda usa aquele carro rabo-de-peixe ?

_Não ! Aquele estava ultrapassado. Troquei por um modelo 88.

_É uma pena. No barracão da Mangueira ninguém desconfiaria do seu carro.

_O que é mangueira?

_Deixe pra lá. Aqui está seu parceiro.

Pegando a foto, o morcego perguntou:

_Detetive Souza, 59 DP. Ele é durão?

_Durão? O Souza é conhecido como “faxineiro da baixada”. Ele é tão casca-grossa que quando vai à igreja quem confessa é o padre.

_Parece bom. Só mais uma coisa, delegado. Como eu chego até a 59 DP ?

_É fácil…

A cara do morcego por baixo da máscara deve ter sido linda, quando ele voltou pro batmóvel de descobriu que tinham levado o toca-fitas.

_Detetive Souza, eu presumo.

_E você é o Clóvis Bornay.

_Quem? Não, eu sou o Batman, o vigilante de Gotham City.

_Sei, sei. Desculpe, eu não li direito o telex do Tuma. Bonita roupa. Aonde você comprou tinha pra homem?

Pra sorte do detetive, Batman não falava português muito bem, e não entendeu.

Logo depois eles saíram, iniciando as investigações:

_Vamos parar ali naquele bar, morcego.

_Certo -disse Batman- vamos interrogar os criminosos e descobrir o paradeiro do Raviolli, não é?

_N¦o, eu só vou tomar um café e comer um Baurú. Eu ainda não tomei café.

A fama do morcego já havia se espalhado pela cidade, e mesmo no carnaval não é difícil reconhecer um cara vestido de malha justa, capa esvoaçante e orelhas pontudas. O único lugar que o Batman poderia ficar incógnito era no Municipal. Mas no momento ele estava no Bar e Restaurante Nossa Senhora de Fátima, em Villar dos Telles.

_Bom dia, menino Souza. Vais querer o d’sempre?

_Claro, seu Manoel.

_O menino d’orelhas pontudas vai querer algo? Quem sabe uma cachacinha?

Já desiludido com sua falta de moral, o morcego gostou da idéia:

_Sim, obrigado. Normalmente eu não bebo, mas vou abrir uma exceção.

_Dessa nós não temos. Serve 51?

_What?

_Serve uma dose aí pro meu amigo, seu Manoel.

“O Coringa iria adorar isso” – pensou Batman, engolindo a cachaça.

_Aí, orelhudo! Como vai essa força?

O desconhecido se aproximou do balcão, sentando ao lado do Batman. Todo mundo no bar observava o sorriso irônico do rapaz.

_Saia daqui, meu jovem. Não quero conversa.

_Desinfeta, pilantra. -Disse Souza-

_Calma, doutor -falou o citado pilantra- não vou aliviar a carteira do morcegoso, não. -e se virou para o Batman- Só estou a fim de um bat-papo.

Ele voou pela porta, foi parar do outro lado da calçada. Só não sabia se gritava das fraturas ou ria da piada infame. O pessoal no bar sabia: Riam como nunca. Alguns se jogavam no chão, outros batiam nas mesas e apontavam para o morcego, que de pé, em posição de combate e fulo da vida, disse:

_Vou acabar com essa alegria!

Ele pegou cápsulas de gás em seu bat-cinto, atirou no chão formando uma expessa nuvem de gás. Mas as gargalhadas continuavam.

_Como vocês podem continuar rindo? Qualquer bandido de Gotham foge quando jogo meu gás. Qual o segredo?

Souza respondeu:

_Não tem segredo, ô de asa. É que a PM quase todo dia joga gás lacrimogênio no pessoal. Já virou hábito. Tem gente que acha mais divertido correr atrás de piquete esperando a tropa de choque do que comprar éter na farmácia.

_Que país, que país!

Todo brasileiro fala mal do país, mas se um gringo diz qualquer coisinha ele vira patriota e toma as dores da nação:

_Calma aí, urubu. Não vem dizendo que a coisa não é séria, que você não tem moral pra dizer isso.

_Como não? Eu sou o maior combatente do crime-

_É? Só que eu pelo menos nunca fui afogado em sorvete, andei com um boiolinha ao meu lado e dirigi um carro alegórico disfarçado de viatura.

Indignado, Batman retrucou:

_Isso foi no passado. Agora eu luto contra o crime, desmantelo cartéis, pulo de pára-queda anda de jato, piloto a bat-lancha e a bat-moto, até o bat-tanque de guerra eu já usei.

_Grandes merda. Já teve um presidente aqui que fazia tudo isso e ganhou um pé na bunda.

O morcegão está no asilo Arkhan, na ala para combatentes do crime estressados. Por favor, mandem cartões. Fará bem à moral dele.


Aula de Religião Obrigatória nas Escolas? Deus me Livre!

14/02/2011 - 5:48 pm  -  105 comentários


House-House_vs._God

Devo boa parte da minha educação ao Colégio Santo Antônio. É uma escola de freiras, tida como a melhor da cidade. Lá aprendi a sair para o recreio pelos velhos corredores de tábua corrida ANDANDO de forma civilizada. Aprendi que no pátio as mesmas freiras que exigiam civilidade dentro no prédio não se importavam com crianças gritando, correndo e sendo crianças, embora levantar a saia das meninas tenha gerado algumas broncas.

Lá descobri que se fizesse muita bagunça seria mandado de castigo para a biblioteca, onde passava a manhã lendo tudo que podia. A freira responsável não ligava, embora fosse algo novo para ela, o resto das crianças de castigo sentava emburrada e ficava xingando no Twitter (metaforicamente, claro).

Não tínhamos folga. Fora feriados importantes só ficamos sem aula nas mortes dos Papas Paulo VI e João Paulo II – A Missão.

Religiosamente (com trocadilho) duas vezes por ano íamos para a capela do colégio. Lembro vagamente de uma professora falando algo como “rezem, ou whatever, fiquem quietos, é só meia-hora”. Não quer dizer que não houvesse religião no currículo. Era uma matéria, que estranhamente nunca foi passada como doutrinação. Estudávamos passagens bíblicas como se fossem (eu sei, são) um livro de histórias.

Nunca passou pela minha cabeça que fossem mais que aquilo, e ninguém no colégio de freiras tentou me convencer do contrário.

Quando fui para o Colégio Brigadeiro Newton Braga, um abacaxi civil do Ministériio da Aeronáutica descobri que havia um… capelão.

E mais: Algumas vezes as turmas eram reunidas no auditório para aulas de doutrinação com o tal capelão. Uma das primeiras eu comprei briga. Conforme havia aprendido em casa, bati pé com o inspetor. “Desde a Constituição de 1824 o Brasil é um país laico, não temos reilgião oficial, eu não sou obrigado a assistir nada relacionado a religião na escola!”

O sujeito viu que não iria dobrar aquele moleque petulante (e ainda culpam o Twitter) e chamou um professor. Nem precisei argumentar muito, me liberou do evento e fui pra cantina. De outras vezes foi mais fácil. Ou a palestra era para quem não tinha feito primeira comunhão ainda ou era para quem já tinha feito. Obviamente me encaixava nas duas, e nem precisei brigar.

Hoje não seria tão fácil, ao menos no que depende do EXCELENTÍSSIMO SENHOR DEPUTADO FEDERAL PASTOR MARCOS FELICIANO.

Clique para ler o resto do artigo »


Thunder! Thunder! Thundercats, Ruim! (ou não?)

13/02/2011 - 10:28 am  -  15 comentários


As informações são de que a cena abaixo é um teste do projeto cancelado de filme dos Thundercats em computação gráfica.

Não gostei da caracterização do Lion, mas algo –não sei o quê- me fez quase gostar. Pronto, falei! Gostei do clima, acho. Opine:

Achado no Daily What


Ficção? Vamos Ficçar, agora kibando Alan Moore

12/02/2011 - 4:46 pm  -  22 comentários


richard-stallman

Alan Moore - Escritor e louco furioso

Como todo mundo que escreve inicialmente tentamos imitar o estilo de nossos escritores favoritos. Felizmente com pouco sucesso, do contrário nos tornamos no máximo uma cópia bem-feita. É uma fase inevitável e necessária, mas pode ser divertida. No texto anterior eu estava em uma vibe Asimov, com toques de Clarke. No texto abaixo, também de 1993 eu chupo descaradamente o estilo de Alan Moore, transportando-o para uma ambientação brasileira e desprezando tudo que Câmara Cascudo escreveu sobre folclore. Mas não se preocupe, meu Saci não brilha.

Também é legal para mim ler esse texto e ver o quanto fico com gana de alterar e reescrever. Na época fiquei MUITO satisfeito com ele. Hoje fico feliz de nunca tê-lo publicado, seria vergonha na estante olhando pra mim.

OK, sem mais delongas, divirtam-se com um conto de terror repleto de brasilidade (ui!)

O Saci

Ele passou o dedo na folha do arbusto. A pele negra de seu dedo estava levemente amarelada. A fábrica, mesmo a centenas de quilômetros da mata, mandava sua mensagem de morte pelo vento.

O saci conteve sua raiva por instantes, pois primeiro tinha que cumprir sua função; em um momento de concentração ele fechou os olhos, entrando em harmonia com a mata.

Naquele momento o Verde abriu seu coração, e ele mais uma vez se sentiu parte do Todo. Nem comandante nem comandados; todas as coisas vivas da floresta se misturavam, onde terminava uma começava outra. Na distância que agora não existia, ele podia sentir os rios feridos, seus peixes morrendo sufocados. As plantas tentavam respirar, mas eram asfixiadas pela poluição que se depositava em suas folhas. Se as chuvas se atrasassem, as árvores morreriam. Quando as chuvas vinham, limpavam a poluição das folhas, mas traziam substâncias tóxicas para o solo.

Imediatamente ele espalhou o aviso, para todas as criaturas que comiam folhas, para se cuidarem. Em sua tristeza, porém, ele sentiu a agonia de centenas de animais para os quais era tarde avisar. O chão estaria, pela manhã, coalhado de corpos. Corpos que não poderiam ser consumidos pelos predadores naturais, pois estavam envenenados.

As leis da natureza são duras, mas justas. Se jogar de acordo com as regras, consegue-se harmonia. O Homem trapaceava. Naquele momento, o Saci chorou e gritou, e prometeu ao Espírito da Mata que o bicho-homem iria provar da fúria da natureza.

Um saci não pode se afastar de sua mata. Sua força vem do Verde. Mas ali era diferente, e a cidade ficava incrustada na mata como uma pedra na coroa de um Rei. Se o Saci pensasse só por um minuto que os habitantes da cidade tivessem um mínimo de culpa, a cidade não estaria mais ali. O Saci sabia que o lixo do homem vinha de longe. Aquelas pessoas da cidade não causavam grandes danos. Só um ou outro caçador, que ele espantava como forma de divertimento. Para ele era mais fácil alertar os ani­mais, mas ver um homem adulto correr gritando feito uma galinha era uma forma mais divertida de proteger a Mata.

Claro, ele se lembrava dos Dois de Preto. Foi a primeira vez que o Saci ficou realmente furioso. Aquela era a segunda.

Dois caçadores, que caçavam por esporte, descobriram a toca de uma jaguatirica. Apesar de terem visto os filhotes, eles mataram a mãe. Enquanto um deles brincava de tiro ao alvo com os fi­lhotes o outro esfolava a mãe antes de ela terminar de morrer. No final eles jogaram a pele fora, comentando um com o outro que ha­viam completado a cota, e que aquela última fêmea era apenas “para não perder o jeito”.

Depois de conter a raiva, o Saci conseguiu invocar todos os insetos da floresta para o acampamento dos caçadores. Um enxame de marimbondos-caçadores paralisou com seu veneno os dois homens, que foram lentamente devorados pelos outros insetos. As saúvas abriam buracos na pele dos homens, para que os insetos menores pudessem saborear sua refeição de tecido subcutâneo. Por ordem do Saci, a cabeça dos caçadores não era tocada. Eles assistiam e sentiam tudo. Quando um desmaiava, pulgões com seus abdomens cheios de seiva de Epadu mergulhavam na garganta dos dois, garan­tindo mais tempo de consciência.

Foi uma noite diferente na mata quando as larvas de mosca-da-berne entraram pelo nariz dos caçadores, em busca do quitute da noite: O cérebro.

As onças e outros felinos se deliciaram com o tutano dos os­sos, e nunca mais ninguém soube daqueles caçadores. Foi um dia gratificante para o Saci. Hoje, ele não pode fazer muita coisa contra as fábricas. Mas o primeiro homem que entrar na floresta sem respeitá-la…

De repente um tremor na Mata. Novamente se concentrando e deixando de lado as recordações, o Saci sentiu.

Os pássaros deixavam seus ninhos mesmo… noite, enquanto o solo era malditamente benzido com carburetos e outras substâncias cancerígenas que pingavam do escapamento do carro. Um cheiro de morte impregnava aquela parte da mata. Não a morte natural da floresta, onde um predador atacava sem raiva, apenas para comer, e a vítima morria sem ressentimento.

Ele sentia o cheiro do Homem. Que vem junto com todas as coisas ruins que o homem faz.

Quando chegou lá  o Saci já  estava sabendo da cova. O Homem novamente tentava fazer da mata sua lixeira.

Ele havia suportado muito do homem. A mata estava cheia de cicatrizes. Mas uma coisa ele sabia, e se lembrava de sua pro­messa ao Espírito da Mata. Pela mata, por todas as matas e por ele mesmo, o Homem não iria fazer da mata o cemitério de sua pró­pria maldade. Que o Homem levasse sua mediocridade para longe dali.

A camada de húmus do solo era riscada pelo peso do cadáver que o homem arrastava. Quando o cortejo solitário estava a uma razoável distância do carro, o Saci resolveu satisfazer sua cu­riosidade, através de um sagui.

O pequeno macaco se esgueirou pela janela do carro, e com a habilidade manual dos primatas abriu o porta-luvas em busca de alguma identificação. O Saci queria saber contra quem estava lu­tando.

O macaquinho olhava para a carteira de identidade sem enten­der, mas através de seus olhos o Saci lia o nome de seu inimigo: João Batista.

Para o Saci era bom saber ler. Um velho da cidade o ensinara, além de contar coisas sobre a civilização. Havia coisas bonitas, mas havia muita coisa feia também. O velho David era bom. Conhecia e amava a mata o bastante para não só não ter medo das entidades que ali viviam, como para ganhar a amizade de uma delas.

Nos vários papéis que o sagui encontrou no carro, o Saci conseguiu descobrir uma série de nomes de pessoas que ele havia visto, nas revistas que David lhe trazia ou nos jornais que des­ciam o rio dos acampamentos na orla da mata. Alguns nomes estavam riscados.

Depois de liberar o sagui, o Saci seguiu o homem. Viu quando ele sacou uma pá e começou a cavar. Viu também quando as raízes das árvores se entrelaçavam, dificultando o trabalho do homem.

O Saci viu e gostou. Ele era uma personificação do espírito da mata, e no momento comandava seu exército em uma batalha ganha antes de começar.

Depois de mais de uma hora tentando cavar sem sucesso, o ho­mem desistiu e tentou cobrir o corpo da vítima com terra, for­mando um monte. Vendo isso, o Saci comandou milhões de formigas que passaram pelo assassino como uma onda. Nenhuma delas tocou no matador. Não era a hora, não ainda.

Elas queriam o cadáver, mas contrariando seus instintos elas seguiram as ordens do saci, tirando toda a terra de cima do corpo.

A noite se estendia sobre a floresta, a lua nova dificultava o trabalho do homem. Ele sentou para descansar em um tronco, mas isso não fazia parte dos planos que o saci tinha para ele.

Onças rondavam, rugindo avisos para o já assustado intruso. Ele tentou beber água em um riacho próximo, mas os anelídeos que vivem enterrados no fundo do riacho pularam em suas mãos.

Com um gesto de nojo ele atirou longe os vermes, limpando as mãos na calça. Já  sem saber o que fazer, João Batista correu para o carro. A garrafa de vodca o ajudaria a entender o que estava acontecendo.

A coceira no céu da boca o fez parar de beber e olhar para a garrafa. Uma lacraia de 3O cm ainda se debatia dentro do vidro. O cheiro de horror que se espalhou pela mata valeu o sacrifício do inseto.

A noite envolvia a mata, se abatendo sobre o intruso. Inu­tilmente ele tentou ligar o carro. As criaturas da floresta não queriam que ele saísse dali. Não naquele momento. Só queriam que ele saísse do carro, e para isso milhares de percevejos abriram caminho pelas entradas de ar, tornando o ambiente tão irrespirável que João Batista teve que sair do carro.

Ele tentou correr, mas as onças, jaguatiricas e outros feli­nos da noite o cercaram. Ele só podia ficar na região entre o ca­dáver e o carro.

Dando uma risada de satisfação, o Saci usou sua cartada fi­nal. Depois que as formigas devoraram o interior do crânio do cadáver, centenas de vagalumes entraram pelo nariz e pela boca, irradiando sua luz fria. Quando João Batista viu aquilo, sua mente chegou ao limite. Ele desmaiou, com uma expressão de terror.

Nenhuma criatura da floresta quis avançar. João era por de­mais desprezível para servir de alimento para a vida harmônica daquele local.

O Saci disse à floresta que não se preocupasse. Ele sabia como livrar a mata daquele humano.

Pela manhã os policiais chegaram para levar João Batista, assassino profissional procurado no país todo. Nenhum dos policiais acreditou que aquele caco de homem fosse o terrível matador de quem falavam os boletins. O que eles encontraram foi um homem completamente enlouquecido, assustado com qualquer coisa, e com uma expressão de horror gravada para sempre no rosto. Parecia que algo terrível havia acontecido com ele.

Não tão terrível quanto o que aconteceu com sua vítima. O cadáver estava lá, como prova de mais um crime hediondo na longa lista de João Batista.

O delegado Serra em seus vinte anos de polícia nunca havia visto um assassino tão atormentado. Na verdade ele notou que João Batista agradecido por ter sido preso. Ele só repetia: “Me tirem daqui! Me tirem daqui!”

Serra pensou, quando lembrou da expressão agradecida de João Batista, que ele mesmo nem havia agradecido ao escurinho que denunciara o paradeiro do matador. Na verdade, ele nem sabia o nome do garoto, que havia sumido logo após a prisão. Ele só lembrava que o menino tinha uma perna mecânica.


Ficção? Por que não?

12/02/2011 - 9:01 am  -  26 comentários


Como todo nerd eu tinha uma produção de conteúdo bem razoável. Acabei me especializando em não-ficção e textos técnicos. Meu primeiro texto publicado, aos 13 ou 14 anos foi na revista MicroSistemas, e a grande ironia é que embora eu tenha me especializado em textos técnicos e não-ficcionais, a primeira vez que vi meu nome impresso foi em um conto de ficção científica publicado em uma revista de informática, que não costumava publicar aquele tipo de texto.

Devo ter em algummmmmm lugar uma cópia da revista, ainda procurarei, estou curioso para reler o texto, do qual não lembro absolutamente nada.

Depois disso continuei escrevendo ficção por um tempo, mas a falta de compromisso e a ausência de lugares para publicar o material me desestimularam. Eu já havia sentido o gosto da tinta, virar autor de gaveta não me interessava.

Mesmo assim quando tinha tempo dava minhas castigadas nas pretinhas e acabava escrevendo alguma coisa.

Agora achei um velho DVD com backups de coisas escritas ainda nos anos 90. Vou postar algumas aqui, atualizar outras e quem sabe retomar o hobby. Sim. hobby. hoje já tenho a tranquilidade de encarar escrever ficção como hobby. Não encano mais com a afirmação de só quem ganha dinheiro com literatura no Brasil é Paulo Coelho e Jorge Amado, pois não é (no momento) meu objetivo, não estou planejando destronar Paulo Coelho. Só quero variar nos temas e estilos, pra não ficar preso a uma fórmula.

Por isso vou começar postando aqui meus velhos textos, com um mínimo de correções. São textos escritos em alguns casos quase 20 anos atrás, então quem for xingar muito no Twitter, lamento informar mas o autor que poderia ser atingido pelas ofensas não existe desde o tempo em que você usava fraldas.

O primeiro texto foi publicado originalmente no blog de ficção científica de minha querida amiga Carol. É um micro-conto de ficção científica escrito em 1993:

 

 

atorre

O Último

A tela se ilumina; uma linha fina separa os dois hemisférios da tela. Um ruído vagamente marinho acompanha a imagem que se forma. Um rosto que não ‚ humano aparece, encarando o Homem.

_às suas ordens-disse a Máquina.

O Homem se espreguiça, sentindo uma leve brisa que entra pela janela. Sem tirar os olhos da tela, o Homem Fala:

_Você pode me ajudar?

_Depende.

A Máquina sabe lidar com perguntas ambíguas.

_Por favor -disse o Homem- eu preciso saber. Durante três gerações minha família esteve morando neste abrigo. Meu avô avisou meu pai que me avisou sobre o perigo por detrás das paredes; ele falou do Grande Nada, contou da Morte Invisível, que mata sem você sentir. Mas agora, quando a armação de concreto caiu e desobstruiu a janela, eu pensei que iria morrer, e não morri.

Enquanto o Homem dava uma pausa para respirar, a Máquina analisava a informação que havia recebido, comparava com ordens programadas em seu cérebro de cristal antes da guerra, e tomava decisões.

_Eu acho -disse o Homem- que a Morte Silenciosa Só vai me atingir se eu for l  fora. O que você acha?

Uma pausa invulgar de quase um segundo demonstrou o quanto a máquina demorou a tomar uma decisão:

_Você ‚ o último Homem. Todos já se foram. Tudo que foi dito por seu pai ‚ verdade. Não há  nada lá  além da Morte Silenciosa.

_Então o que eu vejo?

_Você vê o que eu projeto. Aquilo é uma tela. Os Antigos prepararam para mostrar como era o mundo antes do Fim.

Quase desesperado, o Homem suplicou:

_Mas e o vento, e os cheiros, ruídos? Eu ouço sons como os discos de pássaros. Eu vi nos vídeos. Eu sei que são pássaros.

_São discos. Eu usei robôs de manutenção para instalar ventiladores. Todas as essências aromáticas são trazidas do armazém químico. Não há nada lá, último Homem. Esqueça e aproveite sua vida.

Depois de meses nutrindo coragem e esperança, ele não podia aceitar aquilo. Mas a Máquina era definitiva:

_Mesmo que houvesse algo, você não poderia chegar até lá. Não há  portas, o abrigo é fechado. Esta torre tem mais de cinquenta metros. Desista, por favor. Tente ser feliz no mundo que você sempre conheceu!

Ao mesmo tempo em que gritava, tentando negar a verdade da Máquina, o Homem atirava a tela na parede. Quando a última fagulha se apagou, ele viu que estava só. A máquina que havia sido sua única companhia nos últimos anos estava morta.

Mas havia algo que podia ser feito. Enquanto se comprimia contra a parede oposta… mirando a janela, ele pensou na Máquina. Ela nunca havia mentido. Ela mentiu sempre. Só havia um jeito de saber. Tomando impulso, o Homem se lançou no vazio.

Seus últimos pensamentos foram sobre o gosto da terra misturada com sangue, o cheiro da grama que ele acariciava com suas últimas forças, e sobre o Mundo, que havia sobrevivido ao Homem. Como poucos, ele morreu com um sorriso nos lábios.


Mais Antigos


Quem é Cardoso

Para saber mais sobre o autor deste blog, visite este link. Para enviar uma mensagem, clique aqui. Para anunciar, clique aqui.



Jabá

O Contraditorium está hospedado no Bluehost, com transferência mensal ilimitada, espaço em disco ilimitado, domínios ilimitados, infinitos subdomínios, PHP, Ruby on Rails e todas as funcionalidades que você puder pensar. Quanto? US$6,95 / mês, quinze Reau, menos que uma pizza. Conheça o Bluehost, clique no link abaixo.




Switch to our mobile site