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Haiti, Terra Amaldiçoada por Deus

13/01/2010 - 10:02 pm  -  133 comentários


Ontem fiz um post no CarlosCardoso.com sobre o Haiti. Rendeu um esporro do Dudu Tomaselli, muito bem-dado (sobre SEO, calma) e um monte de gente me xingando e ameaçando minha família, diante de tanta insensibilidade diante de um momento de dor. Compreendo, afinal nada mais justo do que se revoltarem contra meu desprezo à sua preocupação com um lugar que dois dias antes nem sabiam que existia. A imagem revoltante foi esta:

terremotohaiti

Eu sei, eu dou murro em ponta de faca, achar que a maioria iria perceber a crítica social, como fez o Bobagento, era querer demais. Só que o mais irritante é que enquanto críticas disfarçadas de piadas, ou mesmo piadas legítimas como quando disse que o Michael J. Fox estava em Porto Príncipe mas “não sentiu nada” são atacadas com uma fúria insana, quase atribuindo aos humorista a culpa pelo acidente, outros passam impunes.

Como o Reverendo Pat Robertson, um dos maiores tele-evangelistas americanos, ao dizer a seguinte boçalidade:

“Algo aconteceu muito tempo atrás no Haiti, e as pessoas não gostam de falar sobre isso. Eles estavam sob domínio francês. Você sabe, Napoleão III, ou algo assim. Eles se juntaram e fizeram um pacto com o demônio. Eles disseram: Nós vamos servir você se você nos livrar dos franceses. –história verdadeira- Então o demônio disse: OK, temos um trato.

Desde então eles tem sido amaldiçoados por uma coisa atrás da outra”

Não, não estou inventando. Veja o vídeo:

 

Na cabeça de um monte de gente que me xinga Pat Robertson no máximo “se equivocou”, afinal é um “homem de Deus”, um “Cristão”, e não deve ser levado ao pé da letra.

Sinceramente eu prefiro viver em um mundo cheio de FDPs como eu que fazem piadas impróprias, do que em um mundo onde Líderes Religiosos Respeitados como Pat Robertson falam sério.

Infelizmente não posso escolher.



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O Garoto que Domou o Vento

15/10/2009 - 1:21 pm  -  65 comentários


Esta é uma daquelas histórias que rendem filmes de Sessão da Tarde, mas ao contrário do excelente Céu de Outubro, a situação de William Kamkwamba era muito mais dramática.

Ele nasceu e cresceu em Malawi, um daqueles países irrelevantes até mesmo para os padrões africanos. Tem 14 milhões de habitantes, baixa expectativa de vida, alta mortalidade infantil e AIDS. A renda per capita é de US$312,00. Só para comparar a do Brasil é de US$8.295,00.

Sua vila/aldeia não tinha saneamento básico, água corrente e muito menos eletricidade. É comum na África gente percorrer quilômetros a pé para recarregar celulares e rádios, e era o que William fazia.

Em 2002 aos 14 anos seus pais foram obrigados a tirá-lo da escola. Assolados pela fome a família não tinha como mantê-lo estudante. Mas Kamkwamba era um grande guerreiro, não no sentido militar -guerra não faz ninguém grande- mas no intelectual. Mesmo fora da escola ele continuou frequentando uma pequena biblioteca, de um só cômodo, bancada por doações do Governo dos EUA.

Nela ele viu um livro sobre moinhos de vento. Mesmo sem entender muito bem inglês, percebeu que aquilo era algo que ele conseguiria fazer. Percebeu que eletricidade era a chave para melhorar a condição de vida de sua família. Só 2% da população tem acesso ao recurso.

Durante 3 meses ele juntou peças de ferro-velho, bicicletas encontradas no lixo, estudou sobre magnetismo, condutores e dínamos. De posso do conhecimento repassado por Mestre a muito mortos, ele fez algo que deixaria Maxwell orgulhoso: Aplicou a Teoria e construiu um moinho de vento:

Antes do projeto ficar pronto, a turma que acredita que nada pode ser feito da primeira vez caiu de pau em cima do garoto, afinal um moleque de 14 anos, em um país insignificante da África ousar desafiar os Deuses da Mediocridade e construir algo, ao invés de sentar, reclamar e ficar recebendo calado a esmola em forma de doações da ONU? Continue reading “O Garoto que Domou o Vento” »



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Paraíba judia da História

10/10/2009 - 4:02 pm  -  29 comentários


Que o Bolsa-Família faz sucesso eu acredito, mas sinceramente era hora do Bolsa-Escola. Pelo menos assim não haveria esse tipo de vergonha.

Uma frase clássica diz que aqueles que se esquecem da História estão condenados a repeti-la. Eu digo que aqueles que se esquecem da História estão condenados a passar vergonha como o Governo da Paraíba, que teve a pior idéia na escolha do nome de um projeto desde Buda, o Idiota Gordo, novo livro de Salman Rushdie.

O Projeto em questão utiliza mão-de-obra de prisioneiros, ex-detentos, e inclui (sic) fardamento. O nome do projeto?

“O Trabalho Liberta”

Lembrou alguma coisa?

Em alemão fica melhor:

Essa inscrição infame entrou para a História como uma das mais cínicas demonstrações da crueldade humana de todos os tempos; como uma piada de absoluto mau-gosto foi colocada pelos nazistas no Portão de Entrada do Campo de Concentração de Auschwitz, onde 3 milhões de pessoas foram exterminadas como ratos, sobrevivendo apenas durante o tempo em que ainda tinham condição de realizar trabalhos forçados para nos alemães.

Portanto, queridos coleguinhas da Secretaria de Cidadania e Administração Penitenciária, sugiro que na hora de escolher o nome para um projeto envolvendo detentos e trabalho, tentem não escolher um que remeta diretamente aos eventos que cunharam o termo Holocausto, ok?

Dica do Guilherme Grünewald, via Twitter.



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Norton I, Imperador dos Estados Unidos

17/09/2009 - 1:47 pm  -  35 comentários


150 anos atrás era coroado o primeiro e único Imperador dos Estados Unidos da America, talvez o maior de todos os malucos-beleza. A história é comumente tomada como ficção, por ter sido popularizada em Sandman, de Neil Gaiman, mas é incrivelmente verdadeira.

Joshua Abraham Norton era um inglês morador dos EUA que foi muito rico, até perder tudo em um investimento mal-planejado, importando arroz do Peru. A batalha judicial com os credores o desestabilizou mentalmente, a ponto de sumir do mapa, levando anos para voltar a São Francisco.

No dia 17 de Setembro de 1859 ele enviou uma proclamação a vários jornais, onde se declarava Norton I, Imperador dos Estados Unidos. Achando que era brincadeira, alguns publicaram.

Outros decretos se seguiram, onde ele dissolvia o Congresso, dava ordens ao exército, etc. Claro, ninguém prestava atenção. Era apenas um sujeito arruinado, quase um sem-teto, vivendo em um quarto de pensão cuja diária custava 50 centavos.

Só que Norton era uma figura extremamente simpática. Ao invés de expulsá-lo os comerciantes o recebiam bem. Com o tempo o Imperador virou figura folclórica. Ele coletava impostos (geralmente 50 centavos) e era convidado a comer nos melhores restaurantes.

Depois disso placas de bronze eram colocadas na porta, dizendo “Indicado por Sua Majestade Norton I, Imperador dos EUA”. Isso aumentava a freguesia, e logo Norton tinha mais convites do que tempo. Peças e Concertos sempre reservavam um camarote para ele.

Fora os “impostos” a única fonte de renda de Norton eram seus bônus imperiais e papel-moeda. Não só o dinheiro que ele emitia era considerado item de colecionador, como vários estabelecimentos comerciais aceitavam as notas.

Norton inspecionava os bondes, escolas e vias públicas, mantinha correspondência com outros monarcas e dizem até ter se encontrado com Dom Pedro II. Seus decretos iam dos mais loucos a ordens como criar uma Liga das Nações e construir uma ponte na Baía de São Francisco – considerado na época uma idéia doida.

Ele usava um fardão imperial, doado por um general do Presídio de São Francisco, quando ficou rasgado demais, ele ganhou outro, da municipalidade.

No censo de 1870 ele aparece listado como “Imperador”.

Em 1967 Norton foi preso por um policial babaca de nome Armand Barbier, que o tentou levar para um manicômio, para internação involuntária. Uma série de editoriais nos jornais atacou a atitude do filho da puta. Norton foi solto, e Patrick Crowley, Chefe de Policia fez um pedido de desculpas formal para o Imperador, em nome de toda a Força Policial:

“Ele não derramou nenhum sangue, não roubou ninguém, não pilhou país nenhum. Isso é mais do que pode ser dito de outros Imperadores”

Depois disso todos os policiais de São Francisco passaram a saudar o Imperador, quando passavam por ele nas ruas.

Em 8 de Janeiro de 1880 aos 61 anos Norton estava a caminho da Academia de Ciências da Califórnia, onde faria uma palestra, quando teve um ataque e morreu, na rua. Os jornais estamparam manchetes com o falecimento. O San Francisco Chronicle publicou “Le Roi Est Mort”, junto com um lindo e respeitoso obituário.

Todos sabiam que ele era um louco que se achava Imperador, mas um maluco inofensivo e querido, que nunca mostrou ganância, crueldade ou má-intenção. Norton era o pequeno agente provocador, a pequena dose de aleatoriedade que torna a vida menos monótona. E também não era nenhum golpista, como alguns chatos alegavam.

Suas posses se resumiam a uma coleção de chapéus, cinco ou seis Dólares em moedas, US$2,50, uma bengala, uma espada e alguns papéis. Ele ia ser enterrado como indigente, mas a Câmara de Comércio da cidade intercedeu e pagou por um funeral digno. Norton I Imperador dos Estados Unidos foi enterrado com honras de chefe de estado. Seu cortejo foi formado por 30 mil pessoas e teve mais de 3Km de extensão.

Sua lápide traz “Norton I Imperador dos Estados Unidos e Protetor do México”

Joshua Norton mostrou que você não precisa nem sequer ser são para fazer do mundo um lugar melhor.

Fonte: SFGate e Wiki de Verdade



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Uma Bee inglesa mais importante que Elton John

11/09/2009 - 8:15 am  -  47 comentários


Nota: A única piada deste texto está no titulo.

Alan Turing era um Gênio. Um dos pais da Ciência da Computação[bb], e um homem que salvou milhões de vidas. Durante a Segunda Guerra Mundial foi um dos coordenadores dos esforços de criptografia da Inglaterra, criando um computador[bb] e algoritmos que deram acesso a toda a rede de mensagens cifradas alemães, até então protegidas pela inexpugnável máquina ENIGMA.

Vários autores afirmam que o trabalho do Dr Turing encurtou a guerra em pelo menos três anos. Era comum comandantes aliados terem em mãos mensagens antes que elas chegassem aos destinatários alemães.

TODO estudante de computação conhece o conceito da Máquina de Turing,  um “computador ideal”, criado em 1938 e capaz de emular todo e qualquer outro dispositivo computacional. É tão fundamental quanto o entendimento do DNA.

As contribuições do Dr Turing foram imensas, mas a recompensa da sociedade inglesa não foi a esperada:

Em 1952 ele foi exposto como homossexual[bb],  condição que na Inglaterra Bárbara era considerada doença mental. E crime. Turing foi condenado por Atentado Violento ao Pudor, e teve que escolher entre prisão e castração química.

Ele foi forçado a tomar hormônios femininos durante um ano, com objetivo de reduzir sua libido. Que isso iria literalmente acabar com seu organismo, não era problema da Coroa Inglesa.

Com a exposição pública Turing perdeu o emprego, as credenciais, o acesso top-secret e passou a ser visto como um risco de segurança, pois era comum a idéia de que os soviéticos usavam espiões gays para seduzir e/ou chantagear figuras públicas.

De herói de guerra o Dr Alan Turing[bb] se tornou um pária, privado de sua carreira, sua vida, sua sexualidade. Dois anos depois ele fez o que quase toda pessoa racional faria; tirou a própria vida.

Com o tempo a sociedade inglesa foi evoluindo, hoje já há um bom reconhecimento do trabalho desse homem, mas o assunto foi encerrado graças a uma petição iniciada em Agosto de 2009 e atendida ontem por Gordon Brown, Primeiro-Ministro Inglês.

Em uma declaração pública o Primeiro-Ministro reconheceu os erros da Inglaterra dos anos 50, lembrando também dos outros 100.000 homossexuais que passaram pelo mesmo horrível tratamento,  fora os milhões que viveram com medo de ser descobertos.
Um trecho:

“Milhares de pessoas se uniram exigindo justiça para Alan Turing e reconhecimento da absurda forma com que o tratamos. Embora Turing tenha sido  tratado de acordo com a Lei de seu tempo, e não possamos voltar o relógio, seu tratamento foi, claro, completamente injusto, e fico feliz de ter a chance de dizer o quanto me ressinto por tudo que aconteceu com ele [...] assim em nome do Governo Britânico e de todos que vivem livres graças ao trabalho de Alan com orgulho digo: “Nos desculpe, você merecia algo muito melhor”

PS: Eu disse que a única piada estava no título. Eu menti. Vejam que MAGNÍFCA imagem de protesto. Seria muito bom se os homofóbicos a levassem a sério.

“Destruam o computador! Uma invenção homossexual de Alan Turing.
Quem se importa que ele quebrou o código da Enigma[bb] Alemã
e ganhou a Segunda Guerra. É uma máquina homo do demônio!”



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