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O Nascimento de Um Cientista

16/04/2011 - 3:33 pm  -  15 comentários


Eu não sou muito dado a apostas. Poderia dizer que parte disso é trauma por ter gente na família que perdeu tudo por causa do vício do jogo, mas sendo sincero é principalmente por ser muito azarado mesmo, meu lado prático sabe que se me viciasse em jogo seria uma carreira muito curta.

Mesmo assim eu apostaria tranquilamente qualquer quantia que pelo menos uma das crianças abaixo vai ser tornar um cientista estudando paleontologia e fazendo grandes contribuições à Ciência.

Esse tipo de experiência mágica (aqui posso usar essa palavra em paz) muda a vida de uma criança, é uma lembrança que ela guardará para sempre, e não pelo susto. Note como são inteligentes, elas gritam com o medo controlado de quem anda na montanha russa ou assiste um filme de terror. Não é pânico diante do desconhecido, é deslumbramento e um raro momento onde uma memória genética vem à tona, 6000 anos após o último encontro entre humanos e dinossauros.[citation Needed]

Todos vimos na televisão quando a vida de dezenas de crianças de Realengo mudou de forma horrível. Por muitos anos os sobreviventes terão momentos em que se lembrarão da citação atribuída a Nikita Krushov, “os vivos invejarão os mortos”.

Por isso acho uma vingança deliciosamente irônica testemunhar outro monstro invadindo uma escola, dessa vez plantando a semente de carreiras brilhantes, que expandirão nosso conhecimento por décadas e décadas, enquanto o tal Wellington apodrecerá na lata de lixo da História.

 

 

Fonte: Phil



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Uma Esperança no Inferno

13/04/2011 - 11:19 am  -  46 comentários


sandman-death

[choronzon] “Sou um lobo horrendo, um predador letal a espreita de sua presa”

[morpheus] “Sou um caçador a cavalo, ataco o lobo com uma lança”

[choronzon] “Sou uma mosca que pica o cavalo e derruba o caçador”

[morpheus] “Sou uma aranha de oito patas devorando a mosca”

[choronzon] “Sou uma cobra venenosa devorando a aranha”

[morpheus] “Sou um búfalo de patas pesadas esmagando a cobra”

[choronzon] “Sou o antraz, a bactéria carniceira, devorando a vida”

[morpheus] “Sou um mundo flutuando no espaço, nutrindo a vida”

[choronzon] “Sou uma nova explodindo, cremando planetas”

[morpheus] “Sou o Universo, abrangendo todas as coisas, abraçando toda a vida”

[choronzon] “Sou a antivida, a besta do julgamento, sou a escuridão no fim de tudo, o fim de universos, deuses, mundos, de tudo. Ssss. E agora, Lorde dos Sonhos, o que você é?”

 

“Sou a Esperança.”

 

A disputa acima entre Choronzon, um Duque do Inferno e Morpheus, Lorde dos Sonhos é parte da brilhante e essencial série em quadrinhos Sandman, do Mestre Neil Gaiman. É parte da saga onde Morpheus desce ao Inferno em busca de seu elmo, e ganha a inimizade de Lúcifer. A imagem de que no fim de tudo ainda sobra a Esperança é algo que sempre achei forte, e até hoje, verdadeira.

Notem, não falo de ver sempre o lado bom da vida, de uma forma pollyanesca, recusando a reconhecer a existência do Mal. Ele existe, é cruel presente muito pior que se a grana ergue e destrói coisas belas, o verdadeiro Mal apenas destrói.

Por isso fico especialmente feliz ao ver a ferramenta tão usada pelos propagadores do ódio mostrando seu potencial para propagar essas tais coisas belas, como o vídeo que o Leandro Cardozo me mandou. É de um grupo dinamarquês, Done Right Jr, chamado Chatroulette Love Song.

ChatRoulette, você sabe é aquela porcaria onde um bando de sujeitos mostra o pinto na esperança que algum dia uma supermodelo se apaixone por eles, e enquanto isso ficam… apreciando pintos alheios na mesma busca.

O conceito do clipe é achar uma mulher no Chatroulette e entretê-la com uma canção de amor. O resultado? Veja:

 

 

Foi a coisa mais linda que vi ontem, chega a dar pena de quem vive espalhando ódio e não consegue apreciar um vídeo desses.

Outro caso que acho lindo e cito de exemplo sempre de como é muito melhor construir do que destruir é o Meme do Bem que surgiu com este vídeo do Discovery, o bundiábundiá, lembra?

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Ainda continhos: Minha primeira incursão no mundo de Star Trek

19/02/2011 - 11:01 pm  -  27 comentários


Era um trabalho de redação publicitária, 1992. Tema: Atualizar uma velha lenda. Resolvi criar uma história ambientada no universo de Jornada nas Estrelas. acabei me saindo com um conto bem legal, que lembra bastante o magnífico episódio de Star Trek: Voyager Blink of on Eye. Em minha defesa meu texto é de 1992 e o episódio é de 2000, então não houve kibada, sequer não-intencional. Claro, nada descarta uma anomalia espaço-temporal violando as regras de causalidade e transferindo a informação para meu cérebro, mas aí seria já outro conto.

ksm

O continho abaixo é um presente para os trekkers, espero não ter assassinado demais os personagens. Está sem título pois só agora me toquei que funciona bem melhor assim.

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Batman in Rio

19/02/2011 - 7:09 pm  -  12 comentários


Dando prosseguimento ao meu processo arqueológico de desenterrar textos antigos, outro de 1993, uma besteirinha sobre como seria Batman no Brasil. Não sei se foi escrito depois de um número do gibi onde a referência de Rio de Janeiro para o roteirista era uma daquelas favelas mexicanas com todo mundo falando espanhol ou se foi apenas fruto da minha falta de tempo. Está divertidinho mas o texto é datado, ninguém vai lembrar da piada do Lazaroni e terão que ir na Wikipédia atrás do Selo-Pedágio.

batnao

Eu ia usar o Batman do Adam West mas esse é bem mais ridículo

Batman in Rio

Sabem quem pendurou as chuteiras e está no analista? O Batman.

Exato. O morcegão está emocionalmente perturbado e desfruta de longas férias, sem data para voltar ao trabalho. Tudo começou quando o justiceiro de Gotham City seguiu um grande mafioso até o Brasil…

_Isso é meu bat-computador portátil, seu guarda.

_Sei -disse o guarda da alfândega- todo mundo dá uma desculpa. Muamba é muamba. Cadê a nota fiscal? E o senhor vai pagar multa. Esse troço deve custar bem mais de trezentos dólares.

_Eu quero falar com uma autoridade policial. Eu sou um agente da lei e exijo uma autoridade. Onde está o chefe daqui?

_Olha, o doutor Mendonça saiu pra almoçar e não tem hora pra voltar. Ele tinha que levar o carro na oficina, eu acho.

Incrédulo, o homem-morcego consultou o relógio e disse:

_Como saiu pra almoçar? São 10h30min da manhã!

_Eu sei, mas hoje ele trabalhou até tarde. Saiu ainda agorinha.

Como Bruce Wayne é podre de rico, Batman pagou as multas e foi retirar o batmóvel no terminal de carga do Galeão. A pintura estava arranhada.

Usando o sistema de navegação por satélite do batmóvel, ele conseguiu achar a Dutra, mas foi logo parado no primeiro posto da Polícia Rodoviária:

_Documentos, chefia.

_Eu estou com pressa, policial. Eu sou o Batman e…

_Tá bom, eu sou o Lazaronni. Agora cadê o selo-pedágio?

_Selo-o-quê?

O guarda virou para seu companheiro e falou:

_Mais um paulista. Esse pessoal adora se fingir de desentendido.

O confuso vigilante viu que seria detido pela polícia brasileira, e para não criar um incidente internacional, falou:

_Seu guarda, não podemos dar um jeitinho? Quem sabe a gente conversando…

_Mas claro -disse o guarda abrindo um sorriso- conversando a gente resolve tudo, doutor.

Alguns minutos atrasado e alguns dólares mais leve o vigilante prosseguiu seu martírio por terras brasileiras.

_Com licença, moço. Quer que eu tome conta?

Em pleno centro de São Paulo, o escurinho com uma flanela na mão esperava a resposta do morcego.

_Não é preciso, meu jovem. O bat-alarme pode evitar qualquer tentativa de roubo do batmóvel.

_Ih, doutor. Isso não tá com nada. É só achar o fio, cortar e fazer a ligação direta.

_O senhor não quer comprar uma tranca?

Outro menor se aproximava, com um sortimento completo de trancas, segredos, alarmes e break-lights.

_Tem luz de freio também, doutor. Não vai levar?

Antes de ir embora o morcego não resistiu e levou um break-light com o símbolo do Batman, que tinha encalhado da época do filme.

Naquela altura, ele já estava ficando curioso. Ninguém havia reparado em seu uniforme. Mesmo em Gotham City as pessoas ainda se assustavam com o disfarce do morcego. Ele não resistiu e perguntou a um transeunte que passava (aliás, os transeuntes não fazem nada além de passar):

_Desculpe, cidadão, mas vocês não se assustam comigo ? Você não vê nada de errado com a minha roupa?

O homem coçou a cabeça, olhou o homem-morcego de alto a baixo e deu o veredicto:

_Olha, meu, é o seguinte: Estranho eu não vejo. Mas cê podia botar mais cor, umas lantejoulas, sei lá. E a capa, não tá muito legal. Você é de Pelotas? E mais uma coisa: Cê tem outro convite pro Ilha Porchat pra me arrumar? O baile é semana que vem e os convites acabaram.

Sem entender direito, Batman anotou a referência à Pelotas para futura pesquisa e prosseguiu sua missão. Agora ele precisava achar a delegacia do Bixiga. “Vai ser fácil” pensou o morcego, enquanto encostava o carro para perguntar a um cidadão.

_É fácil, meu! Segue em frente, aí cê dobra no farol. Então vira pra esquerda no Tietê e vai em frente toda vida, quando cê vê um bondinho entre dois morros, faz o retorno e se informa!

O batmóvel seguiu direto pela Dutra, e só na metade do caminho Batman percebeu o adesivo “Amo São Paulo Voto Maluf” que haviam colado no vidro do carro.

Quando estava pensando em voltar para tomar satisfações, o bat-fone tocou. Era o contato brasileiro de Batman na polícia federal, avisando que Don Raviolli, o mafioso, havia fugido para o Rio de Janeiro.

_Já que estamos por aqui… -pensou o morcego-

No centro do Rio, ele teve que deixar uma grana na mão de um guarda para conseguir uma vaga. Do Castelo ele andou até a Praça Mauá, na sede da polícia federal. No meio do caminho não resistiu e levou um chaveiro do Batman que um garoto vendia por apenas cinco dólares, porque ele conseguiu um desconto de 50%.

_Como assim um parceiro, delegado?

_É fácil -respondeu Tuma- você vai precisar de alguém que conheça o Brasil.

_Certo, mas e meu disfarce?

_Não precisa -disse Tuma- estamos no carnaval. Você ainda usa aquele carro rabo-de-peixe ?

_Não ! Aquele estava ultrapassado. Troquei por um modelo 88.

_É uma pena. No barracão da Mangueira ninguém desconfiaria do seu carro.

_O que é mangueira?

_Deixe pra lá. Aqui está seu parceiro.

Pegando a foto, o morcego perguntou:

_Detetive Souza, 59 DP. Ele é durão?

_Durão? O Souza é conhecido como “faxineiro da baixada”. Ele é tão casca-grossa que quando vai à igreja quem confessa é o padre.

_Parece bom. Só mais uma coisa, delegado. Como eu chego até a 59 DP ?

_É fácil…

A cara do morcego por baixo da máscara deve ter sido linda, quando ele voltou pro batmóvel de descobriu que tinham levado o toca-fitas.

_Detetive Souza, eu presumo.

_E você é o Clóvis Bornay.

_Quem? Não, eu sou o Batman, o vigilante de Gotham City.

_Sei, sei. Desculpe, eu não li direito o telex do Tuma. Bonita roupa. Aonde você comprou tinha pra homem?

Pra sorte do detetive, Batman não falava português muito bem, e não entendeu.

Logo depois eles saíram, iniciando as investigações:

_Vamos parar ali naquele bar, morcego.

_Certo -disse Batman- vamos interrogar os criminosos e descobrir o paradeiro do Raviolli, não é?

_N¦o, eu só vou tomar um café e comer um Baurú. Eu ainda não tomei café.

A fama do morcego já havia se espalhado pela cidade, e mesmo no carnaval não é difícil reconhecer um cara vestido de malha justa, capa esvoaçante e orelhas pontudas. O único lugar que o Batman poderia ficar incógnito era no Municipal. Mas no momento ele estava no Bar e Restaurante Nossa Senhora de Fátima, em Villar dos Telles.

_Bom dia, menino Souza. Vais querer o d’sempre?

_Claro, seu Manoel.

_O menino d’orelhas pontudas vai querer algo? Quem sabe uma cachacinha?

Já desiludido com sua falta de moral, o morcego gostou da idéia:

_Sim, obrigado. Normalmente eu não bebo, mas vou abrir uma exceção.

_Dessa nós não temos. Serve 51?

_What?

_Serve uma dose aí pro meu amigo, seu Manoel.

“O Coringa iria adorar isso” – pensou Batman, engolindo a cachaça.

_Aí, orelhudo! Como vai essa força?

O desconhecido se aproximou do balcão, sentando ao lado do Batman. Todo mundo no bar observava o sorriso irônico do rapaz.

_Saia daqui, meu jovem. Não quero conversa.

_Desinfeta, pilantra. -Disse Souza-

_Calma, doutor -falou o citado pilantra- não vou aliviar a carteira do morcegoso, não. -e se virou para o Batman- Só estou a fim de um bat-papo.

Ele voou pela porta, foi parar do outro lado da calçada. Só não sabia se gritava das fraturas ou ria da piada infame. O pessoal no bar sabia: Riam como nunca. Alguns se jogavam no chão, outros batiam nas mesas e apontavam para o morcego, que de pé, em posição de combate e fulo da vida, disse:

_Vou acabar com essa alegria!

Ele pegou cápsulas de gás em seu bat-cinto, atirou no chão formando uma expessa nuvem de gás. Mas as gargalhadas continuavam.

_Como vocês podem continuar rindo? Qualquer bandido de Gotham foge quando jogo meu gás. Qual o segredo?

Souza respondeu:

_Não tem segredo, ô de asa. É que a PM quase todo dia joga gás lacrimogênio no pessoal. Já virou hábito. Tem gente que acha mais divertido correr atrás de piquete esperando a tropa de choque do que comprar éter na farmácia.

_Que país, que país!

Todo brasileiro fala mal do país, mas se um gringo diz qualquer coisinha ele vira patriota e toma as dores da nação:

_Calma aí, urubu. Não vem dizendo que a coisa não é séria, que você não tem moral pra dizer isso.

_Como não? Eu sou o maior combatente do crime-

_É? Só que eu pelo menos nunca fui afogado em sorvete, andei com um boiolinha ao meu lado e dirigi um carro alegórico disfarçado de viatura.

Indignado, Batman retrucou:

_Isso foi no passado. Agora eu luto contra o crime, desmantelo cartéis, pulo de pára-queda anda de jato, piloto a bat-lancha e a bat-moto, até o bat-tanque de guerra eu já usei.

_Grandes merda. Já teve um presidente aqui que fazia tudo isso e ganhou um pé na bunda.

O morcegão está no asilo Arkhan, na ala para combatentes do crime estressados. Por favor, mandem cartões. Fará bem à moral dele.



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Ficção? Por que não?

12/02/2011 - 9:01 am  -  26 comentários


Como todo nerd eu tinha uma produção de conteúdo bem razoável. Acabei me especializando em não-ficção e textos técnicos. Meu primeiro texto publicado, aos 13 ou 14 anos foi na revista MicroSistemas, e a grande ironia é que embora eu tenha me especializado em textos técnicos e não-ficcionais, a primeira vez que vi meu nome impresso foi em um conto de ficção científica publicado em uma revista de informática, que não costumava publicar aquele tipo de texto.

Devo ter em algummmmmm lugar uma cópia da revista, ainda procurarei, estou curioso para reler o texto, do qual não lembro absolutamente nada.

Depois disso continuei escrevendo ficção por um tempo, mas a falta de compromisso e a ausência de lugares para publicar o material me desestimularam. Eu já havia sentido o gosto da tinta, virar autor de gaveta não me interessava.

Mesmo assim quando tinha tempo dava minhas castigadas nas pretinhas e acabava escrevendo alguma coisa.

Agora achei um velho DVD com backups de coisas escritas ainda nos anos 90. Vou postar algumas aqui, atualizar outras e quem sabe retomar o hobby. Sim. hobby. hoje já tenho a tranquilidade de encarar escrever ficção como hobby. Não encano mais com a afirmação de só quem ganha dinheiro com literatura no Brasil é Paulo Coelho e Jorge Amado, pois não é (no momento) meu objetivo, não estou planejando destronar Paulo Coelho. Só quero variar nos temas e estilos, pra não ficar preso a uma fórmula.

Por isso vou começar postando aqui meus velhos textos, com um mínimo de correções. São textos escritos em alguns casos quase 20 anos atrás, então quem for xingar muito no Twitter, lamento informar mas o autor que poderia ser atingido pelas ofensas não existe desde o tempo em que você usava fraldas.

O primeiro texto foi publicado originalmente no blog de ficção científica de minha querida amiga Carol. É um micro-conto de ficção científica escrito em 1993:

 

 

atorre

O Último

A tela se ilumina; uma linha fina separa os dois hemisférios da tela. Um ruído vagamente marinho acompanha a imagem que se forma. Um rosto que não ‚ humano aparece, encarando o Homem.

_às suas ordens-disse a Máquina.

O Homem se espreguiça, sentindo uma leve brisa que entra pela janela. Sem tirar os olhos da tela, o Homem Fala:

_Você pode me ajudar?

_Depende.

A Máquina sabe lidar com perguntas ambíguas.

_Por favor -disse o Homem- eu preciso saber. Durante três gerações minha família esteve morando neste abrigo. Meu avô avisou meu pai que me avisou sobre o perigo por detrás das paredes; ele falou do Grande Nada, contou da Morte Invisível, que mata sem você sentir. Mas agora, quando a armação de concreto caiu e desobstruiu a janela, eu pensei que iria morrer, e não morri.

Enquanto o Homem dava uma pausa para respirar, a Máquina analisava a informação que havia recebido, comparava com ordens programadas em seu cérebro de cristal antes da guerra, e tomava decisões.

_Eu acho -disse o Homem- que a Morte Silenciosa Só vai me atingir se eu for l  fora. O que você acha?

Uma pausa invulgar de quase um segundo demonstrou o quanto a máquina demorou a tomar uma decisão:

_Você ‚ o último Homem. Todos já se foram. Tudo que foi dito por seu pai ‚ verdade. Não há  nada lá  além da Morte Silenciosa.

_Então o que eu vejo?

_Você vê o que eu projeto. Aquilo é uma tela. Os Antigos prepararam para mostrar como era o mundo antes do Fim.

Quase desesperado, o Homem suplicou:

_Mas e o vento, e os cheiros, ruídos? Eu ouço sons como os discos de pássaros. Eu vi nos vídeos. Eu sei que são pássaros.

_São discos. Eu usei robôs de manutenção para instalar ventiladores. Todas as essências aromáticas são trazidas do armazém químico. Não há nada lá, último Homem. Esqueça e aproveite sua vida.

Depois de meses nutrindo coragem e esperança, ele não podia aceitar aquilo. Mas a Máquina era definitiva:

_Mesmo que houvesse algo, você não poderia chegar até lá. Não há  portas, o abrigo é fechado. Esta torre tem mais de cinquenta metros. Desista, por favor. Tente ser feliz no mundo que você sempre conheceu!

Ao mesmo tempo em que gritava, tentando negar a verdade da Máquina, o Homem atirava a tela na parede. Quando a última fagulha se apagou, ele viu que estava só. A máquina que havia sido sua única companhia nos últimos anos estava morta.

Mas havia algo que podia ser feito. Enquanto se comprimia contra a parede oposta… mirando a janela, ele pensou na Máquina. Ela nunca havia mentido. Ela mentiu sempre. Só havia um jeito de saber. Tomando impulso, o Homem se lançou no vazio.

Seus últimos pensamentos foram sobre o gosto da terra misturada com sangue, o cheiro da grama que ele acariciava com suas últimas forças, e sobre o Mundo, que havia sobrevivido ao Homem. Como poucos, ele morreu com um sorriso nos lábios.



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Povo Porco é Povo Subdesenvolvido – digo, Em Desenvolvimento. Mas Porco.

07/02/2011 - 9:48 pm  -  36 comentários


Ontem o Fantástico passou uma reportagem sobre lixo. No fundo era jabá pro Ilha das Flores 2 – A Missão, que vai concorrer ao Oscar de Documentário, e se ganhar sairemos às ruas, tal qual cairocas (quem nasce no Cairo. Duvida? Tá na Wikipedia!) celebrando nossa Miséria Finalmente Reconhecida.

Muita gente não gostou do que viu. A Mellancia ficou chocada e externou isso num post. Ah essas crianças. Vou contar um segredo pra ela, que é novinha demais pra lembrar do passado distante:

Sempre fomos um povo porco. É nosso maior componente de união, não é de hoje.

Quando eu era criança havia um personagem que lembrava muito o Cascão (ou o Cascão lembrava ele, não lembro): O Sujismundo. Foi o representante de uma campanha do Governo Federal com o slogan “Povo Desenvolvido é Povo Limpo”. Vejam o primeiro comercial:

Notem que não há nenhuma associação com pobreza ou miséria. Não há uma ligação entre baixa condição social e porqueza. Normalmente isso seria claro discurso de comunistas que tratam pobre como coitadinho, mas no final dos Anos 70 não havia muitos marxistas produzindo propaganda governamental, ao menos em Brasília. Qual o motivo do Sujismundo ser um sujeito de terno e gravata?

<insira tese sociológica de 300 páginas aqui>

PORQUE DESDE AQUELA ÉPOCA QUEM

TEM MAIS CONDIÇÕES

SEMPRE FOI MAIS PORCO!!!!!!

Ufa!

Eu canso de ver. Gente que reclama do saquinho de lixo no carro. “joga pela janela, melhor que esse negócio sujo aí”, gente que não usa o cinzeiro do carro para não deixar cheiro, preferindo atirar a guimba na rua, gente que se torna aleijada, incapaz de carregar uma garrafa ou lata vazia por mais de 5 metros até uma lixeira, e ainda paga de consciência social ao dizer “se ninguém sujar quem limpa perde o emprego”.

Vejam dois exemplos rápidos: A região onde moro em meu bairro no Rio é bem perto do “mar” (é Baía de Guanabara, daí as aspas) costuma desembocar muito lixo. Fora cavalos mortos, garrafas e TVs há ítens assim:

IMG_0709

Isso mesmo. É um sofá. Não é o primeiro. Algum favelado infeliz sem paciência de arrastar o sofá até a rua e esperar o caminhão da COMLURB passar, jogou no mar e que se dane.

“mimimi você falou que isso quem faz é rico e chamou de favelado infeliz”

Yes, caro mimizento. O fato do infeliz ser favelado não o exclui. Se ele tem condições de comprar um sofá, não está tão ruim assim. Se ele pode se dar ao luxo de jogar fora o sofá, então não precisa de dinheiro, mesmo que vendesse por uns R$20,00. E se ninguém na “cumunidade” quis comprar, ou sequer ficar de graça, então não são tão pobrinhos assim, pois um sofá velho é melhor de dormir do que esteira de palha no chão.

E não, não foi caso isolado. Veja outro, mais ou menos no mesmo lugar. Se bem que a rigor é uma poltrona, mas é do mesmo gênero que os sofás.

maispoltrona

Meu bairro é região de classe média média alta. Na rua de frente pro tal “mar” só tem casão. Na virada do ano vários moradores atravessaram a rua para soltar fogos na beira do mar. Atitude saudável, bem menos arriscado do que atirar pra cima e arriscar incendiar a casa de alguém. Mas nem tudo são flores. Vejam como ficou o chão no dia seguinte:

IMG_0708

Acreditem, há lixeiras por toda a orla. O pessoal que soltou esses fogos mora a menos de 50 metros dali. Eles levaram os fogos em bolsas ou sacolas.

O Sujismundo de mais de 30 anos atrás e o que presenciamos todos os dias podem ser vistos como uma indicação que nada mudou, como povo continuamos a mesma coisa. Alguns otimistas entenderão como uma coisa boa, ao menos não pioramos.

Eu digo que não é assim.

As pessoas melhoraram, mas na ficção. Antes tínhamos um personagem que representava a falta de educação do povo. Tínhamos até um personagem que era constantemente alvo de gozação dos amigos por não gostar de limpeza, mas hoje o Cascão toma banho. A praga politicamente correta tornou feio expor nossos defeitos, mesmo através de demonstrações bem-humoradas.

Os Patrulheiros da Correção, já que não conseguiram melhorar o mundo real, decidiram que o mundo da imaginação deveria se tornar livre dos problemas reais. Assim perdemos os exemplos, perdemos o didatismo do exagero e passamos a varrer para debaixo do tapete os problemas do Mundo Imaginário. Talvez na mente dos Chatos as pessoas se inspirem em um mundo perfeito e com isso alterem a realidade, mas no fundo eu acho que eles já vivem nesse mundo perfeito, pois quem se preocupa mais com o Cascão do que com o Lixão não vive no mesmo mundo que eu.



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Não há maior ofensa pessoal do que ser pessoal

31/01/2011 - 5:29 pm  -  48 comentários


Você pode ser um grande líder, preocupado com o futuro de seu povo, atento às ameaças internas e externas, indo dormir todo dia pensando em como aumentar o Espaço Vital de sua nação, mas se alguém comenta te chama de baixinho ou diz que seu bigode é ridículo, o bicho pega.

Tenho reparado que a Internet repete -não é sempre- esse fato da vida. Por mais que a reação dos trolls e haters a textos bem escritos seja sempre ruim, é raro ver um ataque em massa.

Qual será o motivo de um texto tão inocente quanto meu último ter afetado tão profundamente os suspeitos habituais, a ponto de comandarem suas hordas de retardados, que não cessam de se sacrificar inutilmente diante das muralhas de meu Helm’s Deep?

Inutilmente, digo, pois eu descobri a pólvora, Trolls não.

O segredo explosivo é que a Internet vive de estereótipos, de personagens de fácil consumo. O Twitter é o Zorra Total, é a Praça da Alegria, onde cada personagem “popular” é simples em sua concepção. @OCriador é Deus, não é preciso muito neurônio pra entender isso. o @RealMorte é a Morte, e intercala textos simples e de fácil assimilação com tiradas sutis que me fazem rolar de rir.

Os trolls seguem o mesmo caminho, sem o conteúdo original. São simplórios. Assumem a postura de “zoar” e espalham memes como o “Forever Alone”, imediatamente repassados pelos seguidores. É uma cultura de fácil entendimento e zero conteúdo real.

Qualquer tentativa de levar a discussão a um nível mais complexo é respondida com frases feitas do tipo “Internet serious business”. Sim, meu querido. Para você pode não ser, mas para o Google, o Facebook, o Nick Ellis e o Mobilon Internet É algo sério. Mesmo o Kibeloco, com todos os seus incontáveis defeitos sabe exatamente até onde ir, pois Internet para ele é BUSINESS.

Mas mas mas…
Alguém levar a Internet a sério é suficiente para despertar tanta ira? Não, nem de longe. O Kibe não desperta, ele tem uma área de atuação bem definida. Ele provê um conteúdo questionável a um público igualmente questionável e todos saem inquestionavelmente satisfeitos. Ele não ameaça ninguém, nem a mim.

Quando gente como eu fala, entretanto, a coisa muda de figura. A ira despertada por blogueiros tem um paralelo curioso com a raiva que celebridades despertam ao descer de seus pedestais e interagir com outras pessoas (notem que nem usei “fãs”).

O Twitter deveria (nas mentes limitadas) ter uma hierarquia bem definida de funções e áreas de atuação. Celebridades musicais falariam de música, pilotos de corrida e blogueiros postariam links pra seus posts, sem nenhum outro tipo de comentário.

Correndo por fora os trolls zoariam todos, “for the lulz”, sempre colocando um “brinks” no final, para mostrar que não é pessoal e se você se ofendeu, azar o seu por levar internet a sério.

É um modelo estruturado, funcional e uma paródia patética, um arremedo do mundo real que existe apenas para perpetuar a mediocridade.

Posts como o meu anterior ofendem profundamente os trolls pois o mesmo Cardoso (eu!) que escreve sobre tecnologia no MeioBit e no Techtudo razoavelmente em paz ousa sair da caixa e falar sobre outros temas.

Pior ainda, eu ouso falar sobre MIM, sobre o que sinto. Coloco as minhas experiências, desejos e fracassos atrás de cada palavra. O leitor com mais de 3 neurönios percebe isso, se identifica e valoriza.

Eu erro, acerto, anseio, tenho esperança, me frustro, me maravilho. Minha presença no Twitter é uma janela ampla pra tudo isso. Eu não entro só pra zoar, só pra postar, só pra jabazar.

Eu entro pra interagir, para o bem ou para o mal. Entro pra mostrar um lado ruim, entro pra ter o prazer de mudar de opinião diante de um bom argumento. Entro pra ter o prazer besta de postar uma foto da Olivia Wilde e ver a macharada babando (justamente) e entro pra postar uma foto de um filhote de cachorro fofinho.

Essa pluralidade, essa tridimensionalidade, essa HUMANIDADE ameaça.

O troll, que não passa de um personagem bidimensional, mal-recortado em papelão, pouco mais que um daqueles personagens que se resumem a um bordão (RONALDO!) se sente sob minha mira.

Alguém no mundo DELE está existindo fora da caixa, como uma criatura de Flatland alçou vôo e está vendo um mundo em três dimensões, onde pessoas são mais do que uma descrição de 140 caracteres.

Essa falta de versatilidade fica perceptível quando cansamos de seguir um personagem que fala sempre a mesma coisa. Isso vale inclusive para pessoas reais, há artistas no Twitter totalmente entediantes, há gente anônima que transforma um dia-a-dia convencional em entretenimento de primeira -sem nem uma gota do sadismo de um BBB, entenda-se.

Augustus, Imperador de Roma não gostava de atores. Dizia que não podia confiar em uma classe cuja profissão era baseada na mentira.

Com o Twitter sinto algo parecido, não posso confiar ou gostar de atores que vivem tão bem seus personagens patéticos e bidimensionais que acreditam que professam a Verdade Absoluta.



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Um libelo desesperado em defesa do saudosismo

31/01/2011 - 2:18 pm  -  66 comentários


Existe toda uma classe de pessoas que vive no passado. São versões reais do Vovô Simpson, sempre criticando o presente e temendo o futuro, sempre dizendo o quanto o passado que muitos sequer viveram era bem melhor.

Eu gostaria de ser como eles, gostaria mesmo. Queria poder dizer que meu CP-200 com 16KB de memória era melhor do que meu Mac ou meu PC, ambos com 4GB.

Queria ter a cara de pau desse pessoal, a visão seletiva de mundo que considera aquelas máquinas feitas de barro fofo e pedra lascada melhores pois “não travavam”- o que é mentira, aliás.

Queria ser saudosista e dizer que monstros com zíper eram melhores que os monstros atuais, ou que as cenas de combate da série clássica eram melhores que a magnífica batalha final contra o Dominion em Star Trek: Deep Space Nine, com milhares de naves na tela, em um conflito épico.

Queria ser do grupo que defende cegamente a série original de Galactica (que amo profundamente) nem que para isso tenham que elogiar um garoto chato e um cachorro-robô, e fingir que o Comandante Adama de Edward James Olmos não é um líder que qualquer um seguiria até o Inferno.

Queria poder dizer que comprar revistas de péssima qualidade no jornaleiro conivente e sintonizar o TV Link do vizinho era uma forma mais conveniente de acessar pornografia do que a Internet, mas não consigo, até porque digitar com uma só mão é complicado.

Queria poder dizer que o mundo era mais pacífico, mas crescer à beira de uma Guerra Total Termonuclear me faz ver conflitos no Oriente Médio como no máximo briguinhas.

Queria poder dizer que a música de antigamente era melhor, mas boa parte da música boa de minha juventude já era velha. Ela se manteve, o que surgiu de bom continua e o descartável foi esquecido. Como sempre aconteceu.

Queria poder dizer que ouvir música era melhor, mas meus LPs vivam arranhando, minhas fitas K7 só me permitiam ouvir música na sequência e compartilhar música significava emprestar um LP, que geralmente não voltava.

Queria poder dizer que meu videocassete era superior ao DVD (sim, ouvi esse argumento) pois gravava, mas meu LP também não permitia gravação e nem por isso eu comprava meus álbuns em fita K7.
A primeira vez que liguei um DVD e comparei a imagem com uma fita de vídeo passei por uma experiência religiosa. Uma imagem FullHD dá a mesma sensação. Queria poder dizer que isso não importa.

Queria poder dizer que a fotografia digital banalizou a arte, mas eu lembro como era caro comprar filme, tirar fotos de momentos únicos sem saber se saiu ou não, esperar dias pela revelação e só então descobrir se a única lembrança do momento existiria apenas em nossas memórias.

Queria dizer que a Internet afasta as pessoas, as isola e as torna superficiais. Gostaria mesmo de repetir esse discurso fácil, mas minhas maiores amizades e meus maiores amores chegaram até mim por um fio na parede. Só quem fala essas coisas da Internet é gente que não entende que há gente de verdade do outro lado daquele fio.

Queria dizer que era melhor pesquisar em enciclopédias “de verdade”, e que hoje as crianças fazem copy/paste, mas tenho a DECÊNCIA de lembrar que naquele tempo o principal objetivo era encontrar uma imagem recortável para ilustrar o trabalho, e o copy/paste era feito manualmente, copiávamos de forma autômata o conteúdo. NUNCA aprendi nada em trabalhos de colégio, que aliás nunca foram sequer discutidos em sala de aula.

Uma vez eu tirei 7, SETE em um trabalho para Teoria da Percepção, na UFF. Meu trabalho? Uma foto da Luciana Vendramini em um cenário futurista, com esferas de computação gráfica ao fundo. Impresso em uma matricial Elgin Lady Nojenta, de um amigo.

ISSO é o passado onde se aprendia com os trabalhos escolares?

Eu queria também ser daqueles que odeiam o passado, mas adoro o meu. Aprendi muito com ele, aprendi que nossas maiores tragédias um dia se tornam História, que NADA é insuperável. É tudo uma questão de perspectiva. Um braço perdido 20 anos atrás ainda incomodará, mas você não passa 20 anos gritando de dor. Achar sua paz e viver com um braço só não diminui a dor da perda, não é essa a intenção. O tempo me ensinou que aceitar e viver com o que passou não é trivializar. É apenas a alternativa a enfiar uma bala no coco, atitude em geral nada recomendável.

Eu queria muito ser um repórter das antigas. Sério, queria mesmo. Clarke Kent pode inspirar mais que o Super Homem, se você gosta mais de escrever do que tentar ser mais forte que uma locomotiva. Queria, mas não posso. Hoje não existe mais “parem as máquinas”, hoje não existe mais a separação Imprensa / Mortais.

Hoje eu não sou o Último Filho de Krypton (ou ao menos digo que não sou) mas minha voz tem alcance muito maior. Não dependo de Perry White ou Lex Luthor para determinar o que falo ou deixo de falar. Sou meu próprio Roberto Marinho, meu próprio Chatô, embora o Guilherme Fontes não tenha pedido dinheiro em meu nome (acho).

Eu queria ter a certeza dos adolescentes e dos trolls da Internet, de que se algo dá errado na vida é culpa de todos menos de mim mesmo. Queria poder justificar com os pais, os professores e orientadoras. Queria poder dizer “fulano me persegue”, e fazer disso justificativa suficiente para não atingir meus objetivos.

Eu gostaria de querer isso tudo, mas sendo sincero eu só quero uma coisa, que inviabiliza todos esses quereres:

Quero ver o que vem adiante e o quê o Destino me reserva, e se não gostar, mudar, afinal de contas, “Destino Não Existe”, me ensinou Sarah Connor, no Exterminador do Futuro, no distante passado de 1991.



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