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220 milhões de anos de instinto materno versus um idiota com uma faca

04/01/2012 - 8:48 pm  -  32 comentários


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Sarah McKinley é uma jovem bonita, de apenas 18 anos, mas vê-se em seu rosto que falta algo. Não há muita alegria em seus belos olhos verdes. Ela teve parte de sua juventude roubada pelo Destino.

Ela perdeu o marido para o câncer, na noite do Natal. Sarah tem agora que dividir a casa apenas com seu filho de 3 meses e todas as lembranças de um futuro que nunca viverá.

Como se não bastasse voltando do funeral de seu companheiro ela foi abordada por um estranho, que dizia ser vizinho, sugerindo que ela abrisse a porta para que… conversassem. Só que como toda moradora de cidade pequena –e Blanchard, Oklahoma só tem 7600 habitantes– Sarah é desconfiada, preferiu não deixar o estranho entrar.

Vendo que ali morava apenas uma jovem viúva de 18 anos e seu bebê. o estranho, que se chamava Justin Martin voltou até a casa, na virada do ano. Como todo criminoso é covarde, ele trouxe um cúmplice e uma faca de caça de 12 polegadas.

Os dois começaram a rondar, enquanto Sarah se refugiava com seu bebê. Os invasores tentavam abrir as portas, na esperança de alguma ter ficado destrancada. Nisso Sarah correu para o armário, pegou uma pistola e uma Winchester 12 de cano duplo. E o telefone.

Chamando a polícia, uma unidade foi enviada, mas no meio do nada, ninguém sabia quando chegariam. Por 20 minutos Sarah esperou. Ninguém sabe as idéias na mente dos dois bandidos, mas nada de bom poderia sair da mistura de dois canalhas, uma casa sem nenhum objeto de valor e uma jovem e bonita garota de 18 anos, sozinha com um bebê.

Não que isso passasse pela cabeça de Sarah. No momento ela só tinha uma preocupação: O bebê em seus braços, alimentando-se de uma mamadeira, inocente da crise à sua volta.

Na ligação Sarah diz:

“Eu tenho duas armas nas mãos, é OK se eu atirar se ele entrar pela porta?”

A atendente, obviamente treinada para proteger as vítimas, respondeu:

Eu não posso te dizer que você pode fazer isso, mas você faça o que tiver que fazer para proteger seu bebê

*click* – dentro de Sarah instintos mais antigos que qualquer civilização, mais antigos que nossa própria espécie entraram em ação. Não era mais uma jovem assustada que estava ali. Justin Martin estava prestes a enfrentar o animal mas perigoso que já existiu: Uma mãe acuada protegendo eu filhote.

Achando que seria um roubo simples, onde faturaria algumas dezenas de dólares, uma TV, um DVD e talvez um pouco de sexo lubrificado com lágrimas, o infeliz meteu o pé na porta e pulou o sofá que Sarah havia colocado como barricada, partindo em sua direção com a faca.

Foi o último gesto de uma vida inútil, pois naquele momento Sarah, nas palavras de George R.R. Martin olho para o Deus da Morte e disse: “Hoje Não”.

Puxando o gatilho ela pôs fim aos 24 anos de existência de um covarde. Com o peito cheio de chumbo Justin caiu no sofá e lá ficou.

O cúmplice, Dustin Louis Stewart, um covarde de 29 anos saiu correndo ao ouvir o tiro. Horas depois se entregou para a polícia, provavelmente pedindo proteção contra aquela fera loura que se recusou a ser vítima.

Ele agora responderá por tentativa de assalto E –a cereja do bolo- HOMICÍDIO, pois segundo as Leis locais se o sujeito participa de um assalto e uma morte resulta da ação, ele se torna cúmplice. Em Oklahoma isso significa pena de morte ou prisão perpétua.

Fontes: NewsOk, HP, via Twitter do Kevin Smith


TwitterFAQ–Tudo sobre Cardoso (eu)

11/05/2011 - 5:58 pm  -  23 comentários


housefaq

[nota] esta FAQ estava em outro blog, mas decidi migrar para o Contraditorium. Com o tempo irá para o layout do blog.

 

Vivo recebendo as mesmas perguntas sempre, entre as milhares de conversas que tenho no Twitter. Assim, para economizar o tempo de todos os envolvidos (e principalmente o meu) criei uma FAQ com a maioria das besteiras perguntas pertinentes que me fazem. Todas as perguntas são reais, acredite. Se bem que se você me segue, já sabe disso.  Divirta-se.

Clique no Continuar Lendo e tire todas as suas dúvidas sobre esta figura esfingesca da aristocracia twitosférica dominante mundial! (eu)

Clique para ler o resto do artigo »


Senhor das Moscas? Não, Obrigado.

15/04/2011 - 11:33 pm  -  175 comentários


A melhor metáfora para o Twitter hoje é O Senhor das Moscas, magnífico livro de William Golding. Conta a história de um grupo de crianças que sofre um acidente de avião e caem em uma ilha deserta. Inicialmente há toda uma ilusão de paz, prosperidade amizade e mútua cooperação, mas logo começam as disputas de poder.

As simples divergências se tornam disputas mortais. O grupo que queria trabalhar para manter a coletividade viva era hostilizado pelo grupo que queria se divertir.

Logo as crianças passam a fabricar armas, se dividem e a preocupação principal se torna matar uns aos outros, assumir o poder e ganhar o respeito e obediência do grupo.

lord_flies

A metáfora com o mundo adulto é evidente, mas não acho que se resuma à Humanidade em geral. Ela é MUITO igual ao que se tornou o Twitter. Um grupo de crianças brincando, “zoando” e disputando quem é o melhor. Calando a boca coletivamente de quem ousa ser diferente.

Hoje me sugeriram que eu deveria criar uma conta falsa para voltar a interagir. Quem sugeriu tinha boa intenção, mas não percebeu o ABSURDO que falou. Como assim? Devo abrir mão de meu próprio nome, de minha identidade, para poder falar o que penso?

Também me sugeriram –mais de uma vez- que eu deveria apenas ignorar a agressão.

Isso é o equivalente a um aluno gay ser instruído a apenas ignorar quando os bullies o xingarem de “viadinho” no recreio. A perseguição verbal constante é a BASE do bullying, só quem sugere isso é quem está em uma posição cômoda, como uma que confessou se divertir com as perseguições a mim “mas exageraram um pouco”.

Eu desisti. Estava entrando em uma paranoia de autocensura, com medo de postar qualquer coisa e ser alvo de zombaria. Pode reparar, NINGUÉM high-profile posta nada pessoal. Ninguém se expõe. Somos todos fachadas, todos máscaras sem nenhuma pessoa por trás.

Eu não sou uma máscara, não sou um número, sou um Homem. Quero ter o direito de expressar meus sentimentos, meus desejos, minhas opiniões, sem uma criança raivosa xingando e pulando o tempo todo. Sem dezenas de crianças raivosas.

Não posso fazer isso no Twitter. Lá, por obra de vários candidatos a Senhores das Moscas estou contaminado. Meus textos são desprezados por gente que nunca me leu. Sou odiado por gente que nunca falou comigo, gente que tal qual um racista, tal qual um homofóbico ou um antisemita, não consegue sequer racionalizar seu ódio, odeia por ser uma posição popular.

Eu queria SINCERAMENTE saber que mal eu fiz a este sujeito:

Snap147

Eu NUNCA falei com ele. Quando me enviaram o link alguns minutos atrás eu fui verificar, ele sequer está bloqueado. Ele não me segue.

Como alguém que eu, de coração aberto juro nunca ter prejudicado, levantado um dedo ou falado um “a” contra pode me odiar tanto? Que será que fiz para merecer isso? Quem eu matei, quem eu estuprei, quem eu roubei?

Estou saindo de consciência limpa, sei que fiz a escolha certa. Me falaram que para ter paz eu tenho que entrar na zoação, sacanear os outros do mesmo jeito, entrar em esquemas de “trollagem”. Se ao invés de dizer “não quero brincar” eu xingar de volta, inventar mensagens falsas, desprestigiar e achincalhar o trabalho alheio, aí serei aceito, serei parte da “elite” e estarei protegido.

Isso pra mim é chantagem. Isso pra mim é inadmissível. Me recuso a atormentar algum pobre-coitado para eu mesmo não ser atormentado. Me recuso a legitimar uma hierarquia da boçalidade, uma meritocracia da estupidez. O Rei dos Idiotas ainda é um Idiota.

Eu não sou idiota. Sei quando é hora de me retirar. Sei quando o prêmio de ficar e lutar não passa de uma Vitória de Pirro, conquistar o direito a existir no Twitter significaria me tornar o Senhor das Moscas, e esse é um preço alto demais.

Divirtam-se, crianças, a Ilha é de vocês.


Organização é Bom e Eu Gosto, mas não pratico. (aquilo que vc pensou também)

04/04/2011 - 6:01 pm  -  21 comentários


O vídeo deste post é de um sujeito que diz estar fazendo um trabalho de faculdade e se propõe a organizar as frutas em uma barraca de feira. Não é um libelo anti-homofobia, mas até poderia ser, visto que ele reconhece mais de 5 tons de cores, mas o tema é outro, um que eu gosto bastante mas não tenho moral NENHUMA pra falar, organização.

Pode reparar, em mercados BURROS é comum você ver produtos organizados horizontalmente, assim baixinhos, idosos, grávidas, anões e hobbits que se danem, precisam subir em alguma coisa ou alguém para pegar o produto na prateleira de cima. É algo MUITO simples organizar produtos verticalmente, mas não é todo gerente que tem QI para exibir nem todo funcionário QI para cumprir.

Vamos ilustrar com uma imagem estilo Morróida?

Photo abr 04, 4 53 26 PM

Já pensou em uma prateleira na porta de casa com coisas que precisa quando for sair, como documentos do carro e chaves? E uma separação por pessoa da casa, assim ninguém rouba chave de ninguém?

Eu tenho uma caixa enorme lotada de carregadores, sempre que preciso de um é um inferno, ainda mais tentando ler algo impresso em corpo 2, de noite sem lupa. Então tive uma idéia: Imprimir uma etiqueta com voltagem, amperagem e aparelho original de cada carregador, e identificá-los. Assim em segundos acharia o correto.

A idéia foi ótima, só não resolveu meu problema porque ter idéia não é o mesmo que implementar. Careço de um estagiário. Japinhas coreanas de 16 anos, manifestem-se.

O cidadão do vídeo (e deste blog aqui) mostra como uma mudança simples afeta profundamente a apresentação de um comércio. Óbvio, dirão alguns, mas aposto que a mesa deles está tão zoneada quanto a minha. VEJÃO!

 

Veja a Organização Aplicada a Uma Loja: Ao invés de um monte de placas isoladas, faixas coloridas no chão indicando os valores dos descontos, e PRINCIPALMENTE dando um caminho para o consumidor seguir. Segredinho sujo: Pessoas adoram ser encaminhadas, nada mais reconfortante que um trilho, essa estrutura é matadora e custa só alguns rolos de fita por dia, senão em 4 ou 5 dias todos os produtos estarão no setor cinza. O cidadão pelo visto prestou atenção nas aulas:

 


Ficção? Vamos Ficçar, agora kibando Alan Moore

12/02/2011 - 4:46 pm  -  22 comentários


richard-stallman

Alan Moore - Escritor e louco furioso

Como todo mundo que escreve inicialmente tentamos imitar o estilo de nossos escritores favoritos. Felizmente com pouco sucesso, do contrário nos tornamos no máximo uma cópia bem-feita. É uma fase inevitável e necessária, mas pode ser divertida. No texto anterior eu estava em uma vibe Asimov, com toques de Clarke. No texto abaixo, também de 1993 eu chupo descaradamente o estilo de Alan Moore, transportando-o para uma ambientação brasileira e desprezando tudo que Câmara Cascudo escreveu sobre folclore. Mas não se preocupe, meu Saci não brilha.

Também é legal para mim ler esse texto e ver o quanto fico com gana de alterar e reescrever. Na época fiquei MUITO satisfeito com ele. Hoje fico feliz de nunca tê-lo publicado, seria vergonha na estante olhando pra mim.

OK, sem mais delongas, divirtam-se com um conto de terror repleto de brasilidade (ui!)

O Saci

Ele passou o dedo na folha do arbusto. A pele negra de seu dedo estava levemente amarelada. A fábrica, mesmo a centenas de quilômetros da mata, mandava sua mensagem de morte pelo vento.

O saci conteve sua raiva por instantes, pois primeiro tinha que cumprir sua função; em um momento de concentração ele fechou os olhos, entrando em harmonia com a mata.

Naquele momento o Verde abriu seu coração, e ele mais uma vez se sentiu parte do Todo. Nem comandante nem comandados; todas as coisas vivas da floresta se misturavam, onde terminava uma começava outra. Na distância que agora não existia, ele podia sentir os rios feridos, seus peixes morrendo sufocados. As plantas tentavam respirar, mas eram asfixiadas pela poluição que se depositava em suas folhas. Se as chuvas se atrasassem, as árvores morreriam. Quando as chuvas vinham, limpavam a poluição das folhas, mas traziam substâncias tóxicas para o solo.

Imediatamente ele espalhou o aviso, para todas as criaturas que comiam folhas, para se cuidarem. Em sua tristeza, porém, ele sentiu a agonia de centenas de animais para os quais era tarde avisar. O chão estaria, pela manhã, coalhado de corpos. Corpos que não poderiam ser consumidos pelos predadores naturais, pois estavam envenenados.

As leis da natureza são duras, mas justas. Se jogar de acordo com as regras, consegue-se harmonia. O Homem trapaceava. Naquele momento, o Saci chorou e gritou, e prometeu ao Espírito da Mata que o bicho-homem iria provar da fúria da natureza.

Um saci não pode se afastar de sua mata. Sua força vem do Verde. Mas ali era diferente, e a cidade ficava incrustada na mata como uma pedra na coroa de um Rei. Se o Saci pensasse só por um minuto que os habitantes da cidade tivessem um mínimo de culpa, a cidade não estaria mais ali. O Saci sabia que o lixo do homem vinha de longe. Aquelas pessoas da cidade não causavam grandes danos. Só um ou outro caçador, que ele espantava como forma de divertimento. Para ele era mais fácil alertar os ani­mais, mas ver um homem adulto correr gritando feito uma galinha era uma forma mais divertida de proteger a Mata.

Claro, ele se lembrava dos Dois de Preto. Foi a primeira vez que o Saci ficou realmente furioso. Aquela era a segunda.

Dois caçadores, que caçavam por esporte, descobriram a toca de uma jaguatirica. Apesar de terem visto os filhotes, eles mataram a mãe. Enquanto um deles brincava de tiro ao alvo com os fi­lhotes o outro esfolava a mãe antes de ela terminar de morrer. No final eles jogaram a pele fora, comentando um com o outro que ha­viam completado a cota, e que aquela última fêmea era apenas “para não perder o jeito”.

Depois de conter a raiva, o Saci conseguiu invocar todos os insetos da floresta para o acampamento dos caçadores. Um enxame de marimbondos-caçadores paralisou com seu veneno os dois homens, que foram lentamente devorados pelos outros insetos. As saúvas abriam buracos na pele dos homens, para que os insetos menores pudessem saborear sua refeição de tecido subcutâneo. Por ordem do Saci, a cabeça dos caçadores não era tocada. Eles assistiam e sentiam tudo. Quando um desmaiava, pulgões com seus abdomens cheios de seiva de Epadu mergulhavam na garganta dos dois, garan­tindo mais tempo de consciência.

Foi uma noite diferente na mata quando as larvas de mosca-da-berne entraram pelo nariz dos caçadores, em busca do quitute da noite: O cérebro.

As onças e outros felinos se deliciaram com o tutano dos os­sos, e nunca mais ninguém soube daqueles caçadores. Foi um dia gratificante para o Saci. Hoje, ele não pode fazer muita coisa contra as fábricas. Mas o primeiro homem que entrar na floresta sem respeitá-la…

De repente um tremor na Mata. Novamente se concentrando e deixando de lado as recordações, o Saci sentiu.

Os pássaros deixavam seus ninhos mesmo… noite, enquanto o solo era malditamente benzido com carburetos e outras substâncias cancerígenas que pingavam do escapamento do carro. Um cheiro de morte impregnava aquela parte da mata. Não a morte natural da floresta, onde um predador atacava sem raiva, apenas para comer, e a vítima morria sem ressentimento.

Ele sentia o cheiro do Homem. Que vem junto com todas as coisas ruins que o homem faz.

Quando chegou lá  o Saci já  estava sabendo da cova. O Homem novamente tentava fazer da mata sua lixeira.

Ele havia suportado muito do homem. A mata estava cheia de cicatrizes. Mas uma coisa ele sabia, e se lembrava de sua pro­messa ao Espírito da Mata. Pela mata, por todas as matas e por ele mesmo, o Homem não iria fazer da mata o cemitério de sua pró­pria maldade. Que o Homem levasse sua mediocridade para longe dali.

A camada de húmus do solo era riscada pelo peso do cadáver que o homem arrastava. Quando o cortejo solitário estava a uma razoável distância do carro, o Saci resolveu satisfazer sua cu­riosidade, através de um sagui.

O pequeno macaco se esgueirou pela janela do carro, e com a habilidade manual dos primatas abriu o porta-luvas em busca de alguma identificação. O Saci queria saber contra quem estava lu­tando.

O macaquinho olhava para a carteira de identidade sem enten­der, mas através de seus olhos o Saci lia o nome de seu inimigo: João Batista.

Para o Saci era bom saber ler. Um velho da cidade o ensinara, além de contar coisas sobre a civilização. Havia coisas bonitas, mas havia muita coisa feia também. O velho David era bom. Conhecia e amava a mata o bastante para não só não ter medo das entidades que ali viviam, como para ganhar a amizade de uma delas.

Nos vários papéis que o sagui encontrou no carro, o Saci conseguiu descobrir uma série de nomes de pessoas que ele havia visto, nas revistas que David lhe trazia ou nos jornais que des­ciam o rio dos acampamentos na orla da mata. Alguns nomes estavam riscados.

Depois de liberar o sagui, o Saci seguiu o homem. Viu quando ele sacou uma pá e começou a cavar. Viu também quando as raízes das árvores se entrelaçavam, dificultando o trabalho do homem.

O Saci viu e gostou. Ele era uma personificação do espírito da mata, e no momento comandava seu exército em uma batalha ganha antes de começar.

Depois de mais de uma hora tentando cavar sem sucesso, o ho­mem desistiu e tentou cobrir o corpo da vítima com terra, for­mando um monte. Vendo isso, o Saci comandou milhões de formigas que passaram pelo assassino como uma onda. Nenhuma delas tocou no matador. Não era a hora, não ainda.

Elas queriam o cadáver, mas contrariando seus instintos elas seguiram as ordens do saci, tirando toda a terra de cima do corpo.

A noite se estendia sobre a floresta, a lua nova dificultava o trabalho do homem. Ele sentou para descansar em um tronco, mas isso não fazia parte dos planos que o saci tinha para ele.

Onças rondavam, rugindo avisos para o já assustado intruso. Ele tentou beber água em um riacho próximo, mas os anelídeos que vivem enterrados no fundo do riacho pularam em suas mãos.

Com um gesto de nojo ele atirou longe os vermes, limpando as mãos na calça. Já  sem saber o que fazer, João Batista correu para o carro. A garrafa de vodca o ajudaria a entender o que estava acontecendo.

A coceira no céu da boca o fez parar de beber e olhar para a garrafa. Uma lacraia de 3O cm ainda se debatia dentro do vidro. O cheiro de horror que se espalhou pela mata valeu o sacrifício do inseto.

A noite envolvia a mata, se abatendo sobre o intruso. Inu­tilmente ele tentou ligar o carro. As criaturas da floresta não queriam que ele saísse dali. Não naquele momento. Só queriam que ele saísse do carro, e para isso milhares de percevejos abriram caminho pelas entradas de ar, tornando o ambiente tão irrespirável que João Batista teve que sair do carro.

Ele tentou correr, mas as onças, jaguatiricas e outros feli­nos da noite o cercaram. Ele só podia ficar na região entre o ca­dáver e o carro.

Dando uma risada de satisfação, o Saci usou sua cartada fi­nal. Depois que as formigas devoraram o interior do crânio do cadáver, centenas de vagalumes entraram pelo nariz e pela boca, irradiando sua luz fria. Quando João Batista viu aquilo, sua mente chegou ao limite. Ele desmaiou, com uma expressão de terror.

Nenhuma criatura da floresta quis avançar. João era por de­mais desprezível para servir de alimento para a vida harmônica daquele local.

O Saci disse à floresta que não se preocupasse. Ele sabia como livrar a mata daquele humano.

Pela manhã os policiais chegaram para levar João Batista, assassino profissional procurado no país todo. Nenhum dos policiais acreditou que aquele caco de homem fosse o terrível matador de quem falavam os boletins. O que eles encontraram foi um homem completamente enlouquecido, assustado com qualquer coisa, e com uma expressão de horror gravada para sempre no rosto. Parecia que algo terrível havia acontecido com ele.

Não tão terrível quanto o que aconteceu com sua vítima. O cadáver estava lá, como prova de mais um crime hediondo na longa lista de João Batista.

O delegado Serra em seus vinte anos de polícia nunca havia visto um assassino tão atormentado. Na verdade ele notou que João Batista agradecido por ter sido preso. Ele só repetia: “Me tirem daqui! Me tirem daqui!”

Serra pensou, quando lembrou da expressão agradecida de João Batista, que ele mesmo nem havia agradecido ao escurinho que denunciara o paradeiro do matador. Na verdade, ele nem sabia o nome do garoto, que havia sumido logo após a prisão. Ele só lembrava que o menino tinha uma perna mecânica.


Quer investir US$6 mil e faturar US$41 milhões? Sugiro uma mina chilena

16/10/2010 - 4:43 pm  -  28 comentários


Quando o Buraco do Kassab abriu e engoliu metade de São Paulo a Red Bull tentou uma ação de Marketing de Oportunidade (hoje chamam de emboscada, guerrilha, terrorismo, sei lá) distribuindo seu energético para os socorristas, trabalhadores da obra, todo mundo envolvido na operação de resgate.

A iniciativa é legal, Red Bull é responsável por boa parte dos softwares usados no mundo, o produto funciona e pode significar a diferença entre um socorrista sonolento e um cansado mas atento, ouvindo uma vítima presa sob uma laje (pra piorar, com uma churrasqueira por cima fazendo peso, provavelmente)

Tinha tudo pra dar certo, mas a agência resolveu morder mais do que conseguia abocanhar e mandou um bando de gostosas com roupinha promocional, barraquinhas e o escambau. De Repente, Não Mais que De Repente o que era (de verdade) uma iniciativa super-legal que realmente ajudaria os envolvidos com o resgate ficou parecendo uma tentativa barata de faturar publicidade gratuita em cima da tragédia (o que também era verdade, bem-vindo ao mundo real).

Agora no Chile vimos a História se repetir, mas dessa vez se repetiu direito. Sem o deslumbramento dos emergentes os marketeiros envolvidos fizeram TUDO direito.

Bem antes dos mineiros serem resgatados foi lembrado que eles estariam com as retinas sensíveis, depois de 2 meses em condições mínimas de iluminação. Seria imperativo que eles protegessem os olhos, pois na superfície estariam cercados de holofotes, metafóricos e reais.

Entrou no circuito a Oakley, que prontamente se ofereceu para fornecer na faixa óculos para os 33 mineiros.

Não há o que discutir, os óculos são fodaços, produto de primeira linha. Oferta feita, oferta aceita.

Sem fanfarra, sem gostosona da Oakley, os mineiros receberam pela cápsula os óculos. Foram 33 Oakley Radar, no valor individual de US$180,00, num total de US$5.940,00.

O resultado foi que os mineiros saíram completamente protegidos, mais estilosos que o Bono, seus olhos imaculados e em todos os jornais, sites, programas de TV do mundo, uma história vencedora que se estenderá por muito, muito tempo. Não é preciso setinhas (aprendeu, kibe?), todo mundo vai comentar e todo mundo vai querer “os óculos dos mineiros chilenos”.

Um cálculo da exposição conseguida pela Oakley coloca a mídia gratuita num montante de US$ 41 milhões.

Só para dar uma idéia, a operação inteira de resgate foi avaliada em US$ 20 milhões.

NINGUÉM em sã consciência vai acusar a Oakley de se aproveitar da tragédia para divulgar sua marca (por mais correta que seja a afirmação. De novo, bem-vindo ao mundo).

A lição é que é possível conseguir resultados absurdamente bons investindo muito pouco e ousando muito, só é preciso determinar o ponto exato em que a ambição se torna ganância, e parar um milímetro atrás.

De resto, uma imagem vale mais do que 461 palavras:


No futuro não viveremos no passado, por falta de passado

13/10/2010 - 12:19 pm  -  29 comentários


O aparelho da imagem é uma… calculadora. Casio PRIZM, com 16MB de armazenamento, 61KB (isso mesmo, KB) de memória para programas, display de alta resolução (pra uma calculadora) e algumas funções bem legais, como uma ferramenta para calcular os parâmetros de uma curva em uma imagem importada.

A parte surreal é que ela está sendo vendida (nem isso, anunciada) em 2010. OK, surreal mesmo é saber que ela venderá bem, como as HPs e Texas ainda vendem. Um grupo expressivo de profissionais ainda se sente mais a vontade usando uma calculadora do que um PDA, Notebook ou iPhone.

Esses são profissionais que ainda viveram em um tempo onde suas ferramentas escolhidas tinham alguma longevidade.

Era um tempo onde uma ferramenta seria aprendida e usada por toda uma vida. Hoje não existem mais ferramentas assim. Todas são efêmeras, qualquer um usando os softwares de dez anos atrás será considerado legalmente insano. Mais ainda, é impossível manter funcionando uma estrutura tecnológica tão antiga. Softwares não são pensados para isso, mesmo sistemas bem-sucedidos como o Windows XP já deixaram de receber atualizações, e ainda assim é um caso excepcional. Empresas com menos recursos que a Microsoft dificilmente garantiram seus produtos por tanto tempo.

Os profissionais da geração atual não tem mais a possibilidade de se acomodar em uma zona de conforto. Antigamente era possível aprender COBOL na faculdade e se aposentar como coboleiro. Hoje a maioria das tecnologias que um calouro usará em seu primeiro emprego não foram sequer inventadas. E não é só com tecnologia que acontece isso. Cinco anos atrás ninguém tinha sequer o conceito de especialista em mídias sociais, hoje toda agência de propaganda tem pelo menos um. Ao mesmo tempo o especialista em Internet que ganhou muito dinheiro com Second Life hoje morreria de fome, se não tivesse se adaptado. (alguns devem ter morrido, ou pior, virado atendimento)

A televisão passou décadas sem nenhum avanço significativo, agora mal os profissionais se acostumaram com a Alta Definição, tem que se adaptar ao 3D. Batendo na porta, a Interatividade e a não-linearidade da distribuição online de conteúdo.

Não temos carros voadores, mas fora isso o Futuro está sendo desafiante. Darwinista até o osso, demandando profissionais versáteis e com um grau de inteligência bem acima do mínimo exigido nas décadas passadas. É ruim para muita gente, principalmente para os que se deram ao luxo de ficar velhos. Já os outros, que gostam de matar um leão por dia estão adorando, pois melhor do que matar os pobres felinos só ter que criar um leão geneticamente modificado por dia, e é isso que o Mercado anda exigindo.

Quanto às calculadoras, ainda são úteis, tanto que um emulador oficial de HP 15C como o da imagem acima, rodando no iPhone custa apenas US$29,99, já  o  Submarino tem uma calculadora científica Casio de 664 funções por R$439,00. Well, ninguém falou que viver no passado era barato.


Teste. E bola pra frente.

13/08/2009 - 7:01 am  -  16 comentários


Se você está lendo isso significa que está atrás de mim neste momento e isso é bem perturbador. Ou então que todos os testes funcionaram a migração foi completada e este blog voltou ao ar.

Tive vários motivos pessoais para dar essa parada. Pisei na bola com algumas pessoas e especialmente com os leitores, mas no final acho que sairemos ganhando. Gostaria deixar bem claro que os boatos da morte do Contraditorium e do CarlosCardoso.com foram exagerados, assim como o uso dessa citação de Samuel Clemens por parte de todo autor de segunda que quer parecer saidinho. Só não é mais usada do que a babaquice de se referir a ele pelo nome real, Clemens, ao invés do pseudônimo famoso, Mark Twain.

Na verdade o que parecia o inexorável fim entrópico dos blogs, o se tornou -se posso dizer- uma bênção. A mídia fala de Twitter o tempo todo, os blogs falam de Twitter o tempo todo, e eu mesmo viva falando de Twitter. Pois bem, fui me meter a falar de Twitter, o Marcelo Tas gostou, publicou o link. Milhares e milhares de visitantes entraram aqui em hordas, derrubando tudo. Não ganhei dinheiro pois o site ficou fora do ar, e eles perderam seu tempo atrás do conteúdo, pelo mesmo motivo.

Disso tirei a lição de que pato novo não dá mergulho fundo. Besteira manter um servidor Tas-Proof, se ele não se compromete a indicar uns 3 links meus por dia.

Resolvi que poderia me livrar de 2 problemas de uma só vez: O servidor que caía todo dia e os leitores reclamando justamente das aporrinhantes pautas de Twitter. Então criei o Passaralho, o primeiro blog da CardosoNet voltado exclusivamente para assuntos relacionados ao Twitter.

O que você, fiel leitor do Contraditorium ganha? Nada, quem ganha é a Carta, mas ao menos posso me comprometer a não publicar nenhuma pauta relacionada a Twitter por aqui.

Isso já vai deixar muita gente satisfeita. Inclusive eu.

Agora é juntar os cacos, recuperar o tempo perdido e fazer o que fazmos todas as noites.

Agradeço a todos pela paciência, e pode espalhar: The bitch is back!


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